Revista
Paola - Qual
deve ser a abordagem ideal para um pedido de aumento ?
Luiz
Roberto Bodstein -
Antes de qualquer coisa é fundamental estar bem fundamentado para o
pedido, ou seja, ter-se plena consciência de que a atuação do
profissional esteve dentro das expectativas e, conseqüentemente, existem
argumentos para sustentar a solicitação. Outro
fator importante é o relacionamento existente entre o funcionário
e o superior para o qual ele estará pedindo aumento: se a
relação entre ambos for difícil ou estiver desgastada,
dificilmente o chefe estará predisposto a ouvir seus argumentos e
julgar a questão com a necessária imparcialidade, a menos que
saiba separar muito bem as coisas, o que nem sempre acontece.
RP
- Por onde é que se deve começar
para tornar o superior disposto a ouvir e estudar a solicitação ?
LRB
- É sempre positivo começar
fazendo uma avaliação comparativa de cargos e salários em nível
de mercado com os da empresa onde se trabalha. Isso dá subsídios
para desviar a questão do aspecto puramente pessoal e direcioná-la
para uma abordagem mais técnica, além de que facilita o diáglogo
e otimiza o assunto, evitando que se perca em explicações
desnecessárias.
RP - E
qual deve ser o tom da conversa? Pede que seja formal ou é preferível
mantê-lo em clima bem descontraído?
LRB
- Isso vai depender do grau
de intimidade e camaragem existente entre chefe e funcionário.
Se o relacionamento se manteve no estritamente
profissional e sem maiores intimidades, não é de bom tom forçar
barra para parecer informal, pois fica evidente tratar-se de uma
manobra para conseguir-se o que se pretende. Mas se
naturalmente se desenvolveu um clima de informalidade na relação,
é natural também que esse clima seja mantido na hora de se falar
sobre o aumento, pois algo diferente disso poderia passar insegurança
ou inconsistência. A manutenção das mesmas condições
existentes até aquele momento facilita o diálogo e dá
liberdade a ambos para dizerem claramente o que pensam, sem
constrangimentos ou subterfúgios. A firmeza na hora de expor
pensamentos não precisa assumir postura de distanciamento
ou rigidez. Pode-se ser direto, claro e firme fazendo uso,
simultaneamente, de descontração e simpatia. O
importante é não demonstrar inibição e justificar suas
necessidades pessoais sem muitos rodeios.
RP -
Não fica difícil colocar de
forma direta o que se pretende sem passar nervosismo?
LRB
- Tudo
é uma questão de convencer primeiro a si mesmo de que o
pedido se justifica, e que o desempenho apresentado está coerente
com as pretensões em termos de salário. A convicção
de que isso é verdadeiro é um componente importantíssimo para se
manter o auto-domínio. Antes de entrar na sala do chefe é
bom lembrar-se de que não se está fazendo nada repreensível ou
que mereça qualquer represália. É relaxar, respirar
fundo e mostrar-se o mais natural possível.
RP -
Chegar
sem marcar hora ajuda a manter o clima de informalidade ?
LRB
-
Também
vai muito do grau de informalidade existente entre ambos ou também
da cultura instituida na empresa. Para algumas pessoas a
interrupção pode ser um fator de resîstência para se mostrar
disponível. Para outras pode ser hábito corriqueiro.
Isso pede uma análise da característica pessoal do superior.
Algumas empresas estimulam a informalidade e orientam seus gerentes
para manterem as portas sempre abertas e ouvirem seus funcionários
sempre que forem procurados, outras mantém uma certa distância
entre os diferentes níveis da hierarquia. Se este for o caso
da empresa, o ideal é marcar o horário que for mais propício
e menos sujeito a interrupções. Tudo vai da realidade encontrada,
lembrando sempre que nenhuma regra deve substituir a sensibilidade e
o bom senso.
RP
- Quais seriam os fatores mais importantes para
se observar ao longo da conversa?
LRB
- Alguns são imprescindíveis: o primeiro seria ater-se
a fatos e dados, e não meramente a opiniões pessoais para demonstrar
sua eficiência. Lembrar também que só ser eficiente não
é fundamental: bem mais importante do que isso é
mostrar resultados, ou seja, comprovar eficácia! Traduzindo:
para a empresa não importa o quanto você é um bom funcionário,
mas sim o quanto você contribui para que ela cumpra a sua missão e
obtenha sucesso com o seu trabalho. Seu mérito deve ser
proporcional à competência demonstrada. Isso fala mais alto
do que qualquer argumento. Se o desempenho contribuiu
para redução de custos ou para gerar mais retorno financeiro, esse
também pode ser um componente bastante forte para a decisão favorável.
Portanto, uma auto-avaliação a respeito da credibilidade e
respeito profissional angariados ao longo da trajetória na empresa
pode ser a garantia de que não se corre o risco de ouvir uma
resposta do tipo: " O que você fez até agora para
achar que merece um aumento?"
RP
- Pode-se
mostrar a diferença existente entre o salário que se ganha e o de
um colega que está numa faixa bem melhor ?
LRB
- Isso é totalmente desaconselhável por implicar em questões
éticas. Ainda que uma defasagem desse tipo tenha algum peso
psicológico ou prático no seu desempenho profissional, é sempre
bom evitar esse tipo de comparação e concentrar-se nos
aspectos positivos de sua atividade. Ainda que pelo aspecto
legal a equiparação salarial seja um direito de funcionários
de mesma função, a utilização do fato para justificar um
aumento sempre irá depor contra a imagem do reclamante.
O aumento até pode vir por essa via, mas com certeza o recurso de
que se fez uso será contabilizado contra o funcionário.
RP
- Existe
um tempo mínimo de trabalho a ser observado antes de se procurar o
chefe para pedir aumento ?
LRB
- É claro que isso também é relativo. Existem
profissionais que em um mês são capazes de trazer mais resultados
para a empresa do que outros o fazem em anos de serviço. Mas
em se tratando de Brasil, é muito difícil se falar em aumento com
menos de um ano de serviços prestados à empresa. Além de
ser um tempo razoável para se conhecer o profissional, praticamente
existe um consenso em nosso mercado de oferecer compensações
financeiras após a avaliação de desempenho que, normalmente, é
anual. Salvo situações muito excepcionais, essa é a prática
mais comum.
RP
- E
se, com todos esses cuidados, a resposta ainda assim for negativa?