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CIVILIDADE COMO EXERCÍCIO DE CIDADANIA

 

 

 

Entrevista concedida a Ruy Guedes Stefanini, mestrando em Jornalismo pela Universidade de Brasília, que procurou o Consultor para reunir subsídios para sua tese de Mestrado.

                              


Ruy G. Stefanini – Há alguns anos o senhor publicou diversos artigos com tema no comportamento em sociedade e cidadania. De lá para cá não mais se expressou sobre o assunto. Por que do corte tão abrupto?

LUIZ ROBERTO BODSTEIN – Na verdade não houve uma mudança tão repentina assim. Eu trabalhei com esse assunto ao longo de quase uma década. O “Alerta Cidadão”, principal veículo de comunicação que eu utilizava para divulgar minhas idéias pela internet, foi encerrado na sua 159ª. edição. Se você considerar aí a frequência de um ou dois números mensais, dá prá ver que atuei um bocado de anos na defesa do tema.

RGS - Houve alguma razão específica para a repentina mudança de rumo?

LRB – Uma só eu não diria. Houve todo um conjunto de fatores que contribuiu ao longo de um extenso período para a decisão. Na realidade o que aconteceu foi um acúmulo de decepções pela falta de respostas num contexto em que predomina uma mentalidade egocêntrica que não leva em conta a divisão do espaço com as demais pessoas. Nosso país ainda está longe de se importar com o respeito a regras mínimas de convívio como fator decisivo para melhorar sua qualidade de vida. 

RGS – Poderia explicar melhor, Professor?

LRB – Claro! No Brasil, excetuando os que se dedicam ao assunto como objeto de militância, o povo em si não tem a menor noção da diferença entre civilidade e civismo, e culturalmente estabeleceu um comportamento defensivo como resposta a este último, mas não desenvolveu qualquer percepção do que seja civilidade, e mesmo quando entende a diferença, não a cultiva nas suas relações do cotidiano. Civismo trata tão somente do respeito às instituições formalmente estabelecidas, a dispositivos legais. A postura do brasileiro nesse aspecto é reativa, ou seja: ele se limita a obedecer “sob vigilância”, porque fica sujeito a sanções quando as viola. Civilidade, em contrapartida, não está vinculado a um cumprimento exigido por lei, mas pela consciência de cada um para as boas práticas de convivência tão somente, que tornariam melhor a vida de todos. Trata-se de respeito a normas de convívio entre os membros de uma sociedade.

RGS – E essa foi a razão que determinou a sua desistência na defesa de suas teses sobre civilidade?

LRB – Veja só: eu nunca desisti de defender minhas idéias a respeito. Eu simplesmente mudei a forma de atuar. Houve um momento em que percebi que a única coisa que eu estava colhendo como resultado era um enorme desgaste emocional, mas nada de prático, efetivamente. Até então eu acreditava que as pessoas não praticavam civilidade porque não tinham consciência de sua importância para melhorar suas próprias vidas. 

RGS – E não era isso?

LRB – Não! Concluí naquele momento que a prática não ocorria porque elas não traziam dentro delas o quesito indispensável para que isso pudesse gerar uma cultura: a educação, o respeito ao outro como base de sua formação. Seria como esperar que um computador produzisse uma determinada resposta para o qual não fora programado, e nem sequer possuisse em sua memória o programa exigido para processá-la.

RGS – Como se alguém quisesse criar uma apresentação de slides, mas não tivesse o Powerpoint instalado? Ou tentar editar um texto sem ter o Word?

LRB – Correto!

RGS – E como foi que o senhor chegou a essa conclusão?

LRB – Por observação do cotidiano delas, pura e simplesmente! Qualquer um que se disponha a fazer o mesmo vai constatá-lo numa simples saída para ir na padaria da esquina. Você segue numa calçada estreita e se depara com um grupo de pessoas falando “abobrinha” e tomando toda a passagem. Se você parar na frente delas, no máximo irão se virar com um olhar de “tá querendo o que?”, mas raras serão as que irão se tocar de que você precisaria descer à rua para continuar em frente. Se você se irritar a cada vez que tais coisas acontecerem, ou reclamar porque ignoram você da mesma forma que o vira-latas que também escolheu a rua, vai passar o resto da vida se aborrecendo, sem que nada mude.

RGS – Então o problema está mesmo na educação das pessoas.

LRB – Com certeza! E não se trata de algo que aconteça aqui ou alí. Isso é geral! As que se tocam para essas pequeninas coisas são rarissimas. Faça o teste dos 7 dias: Conte nesse tempo quantas cedem o lugar para o idoso no ônibus, que entra e encontra o lugar destinado a eles ocupado por um jovem de 20 e poucos anos. Os que sabem que teriam que levantar fingem dormir, mas a maior parte nem se toca. Certa vez tive que pedir que um jovem cedesse o lugar de deficientes físicos a uma senhora que usava muletas, pois o rapaz fez que não era com ele.

RGS – Isso é mais comum em metrópoles como Rio e São Paulo?

LRB – Até há uns 15 ou 20 anos atrás eu diria que sim. Hoje em dia essa mentalidade se alastrou para as cidades menores. O tratamento está ficando cada vez mais impessoal, mas distanciado. Poucos são os que hoje cumprimentam estranhos na rua nessas cidades menores, como acontecia em tempos em que isso valia como regra. O mais estranho é o paradoxo: ao mesmo tempo que os meios de comunicação se aprimoraram, levando a informação a todos os recantos do país – o que parecia ser uma forma de melhorar a conscientização – aconteceu o contrário: parece que o interior entendeu que o padrão de modernidade dos grandes centros mostra que cumprimentar o vizinho, estar atento à presença do outro, ou compartilhar de forma respeitosa o espaço comum é “coisa de caipira”. Para agir como “gente de metrópole” é preciso ver os outros como “os outros”. A grosso modo essa é a mensagem que fica!

RGS – O encerramento do “Alerta Cidadão” foi motivado por esse sentimento?

LRB – Com certeza! Embora quem tenha lido a justificativa apresentada na última edição possa entendê-la como de cunho político, a decepção que eu traduzo no texto não diz respeito tão somente àquele momento político triste que vivíamos na ocasião, com tantos escândalos nos escalões governamentais em clima de total impunidade. O fato em si era o climax de uma constatação que já vinha sendo construída bem antes: de que o país estava se lixando para aquele estado de coisas. Se a população de um país como um todo passou a enxergar suas próprias mazelas como normais, o que se esperar de quem detem o poder e apenas repete o comportamento que trás de raiz na sua essência? Uma coisa é consequência da outra. 

RGS – “Quando a desesperança toma conta” – que foi o título da sua última edição do “Alerta” - se mostrou uma espécie de desabafo contra esse estado de coisas...

LRB – Sim! Acho que bem mais do que um simples desabafo: foi um gesto de jogar a toalha, mesmo. Foi o reconhecimento do quanto eu estava dando murro em ponta de faca. Eu me senti exatamente como naquela figura do marisco jogado entre a onda e o rochedo, que não acrescenta coisa alguma à força do mar nem à resistência da pedra. Isso tudo me veio numa noite em que eu me deitei ainda na militância e acordei com um sentimento enorme de derrota, de alguém que grita em meio ao deserto. Minha auto-estima estava profundamente ferida, o sentimento de impotência era o maior que eu sentira em toda a minha vida!

RGS – E essa impotência não fez com que sua auto-estima ficasse ainda mais abalada depois, como consequência de ter abandonado o campo de batalha?

LRB – Ao contrário! Minha auto-estima entrou em alta algum tempo depois que tomei a decisão, pois que pude compreender aqueles momentos pela ótica de observador, e não como o protagonista de um plano fracassado de transformação social, o que seria impossível dentro das minhas possibilidades. Um amigo sem querer me alertou para meu real papel no contexto, ao perceber meu desgaste e me falar para eu me concentrar no meu lado profissional por uns tempos, deixando as questões sociais para segundo plano. Foi quando percebi que, na minha profissão – em que tinha o respeito de parceiros, alunos e clientes – eu tinha formas de passar essa mensagem e contribuir para as mudanças de forma sistemática sem, necessáriamente, desviar-me dos rumos que eu traçara para mim. Senti o momento atravessado como a batalha abandonada estrategicamente para continuar na guerra que tinha a natureza como aliada para garantir a vitória final. Eu sou um educador, e meu papel político e social poderia perfeitamente ser exercido dentro de meu contexto: nas salas de aula, nos projetos empresariais, nas conferências e debates para os quais era convidado. Era a MINHA forma de dar continuidade à militância dentro do que eu sabia fazer bem, e a contribuição que eu poderia dar às tantas pessoas que me ouvem, em prol da evolução do meu país. Sou um defensor ferrenho da educação como o grande fator de transformação social. 

RGS – E como o senhor enxerga agora aquela situação que gerou todo esse desgaste?

LRB – Em relação à mim mesmo como um enorme aprendizado: descobri que não se pode apressar o ritmo natural das coisas. Hoje não acredito que levantar bandeiras, simplesmente, produz efeito a curto prazo. Tenho total convicção de que a melhoria virá, de qualquer forma, mas que não há como antecipá-la por mera vontade individual. Não pelo menos sem algum fator extraordinário em andamento, como um grande lider ascendendo como modelo, ou um momento de enorme impacto que altere toda a estrutura social do contexto onde seja inserido. O japão não seria a potência que é hoje sem a segunda guerra mundial, que quase o destruiu. A Rússia não estaria emergente agora se não tivesse encarado de frente a dolorosa renúncia aos seus anseios de dominação do planeta. Grandes eventos promovem grandes mudanças, numa espécie de “reengenharia” indispensável à transformação da mentalidade reinante. Não ocorrendo tal ruptura o processo acontece no estilo “Kaizen”: as coisas vão mudando em doses mínimas, quase imperceptíveis, e se estendem por um longo período de tempo até se estabelecer parâmetros de comparação de um momento bem recente com um que ficou lá no passado, para se poder dimensionar as conquistas obtidas em dosagem homeopática. O Brasil ainda está no meio do caminho.

RGS – Muito grato, professor, pela entrevista, e espero encontrar o senhor nesse momento em que essa consciência de que o senhor fala já esteja mais integrada ao cotidiano das pessoas.

LRB – É o que eu também espero que possa presenciar antes de encerrar a minha militância como integrante do planeta. Eu é que agradeço pelo seu interesse, e lhe desejo sucesso na sua tese de Mestrado.

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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas.  Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.