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Globalização: de quem é a culpa afinal?
Consultor de Plantão nº 1
Uma grande discussão tomou espaço em todos os cantos do planeta, e até agora não se chegou, aparentemente, a nenhuma conclusão que se aproxime de consenso: afinal, a globalização é positiva ou apenas aumenta as diferenças sociais? É possível, através de uma implacável resistência, impedir que ela se alastre e domine as estruturas sociais?
*Luiz Roberto Bodstein
Já se tornou rotina assistirmos pela TV a cenas de protestos, em toda parte do mundo, contra o processo de globalização por que passam os países. O "judas" mais malhado nessas manifestações tem sido a chamada "globalização da economia", que tem dado motivo a verdadeiras batalhas urbanas, inclusive com inúmeras vítimas.
Em diversas partes do mundo as contestações acontecem numa vã tentativa de deter-lhe o avanço. Há poucas semanas milhares de pessoas tomaram as ruas de Praga, na República Tcheca, para protestar contra a globalização durante a reunião anual do FMI que lá se realizava. Um outro encontro importante, desta vez da Organização Mundial de Comércio, na cidade americana de Seatle, também sofreu interferência por efeito de outra manifestação popular quando buscava aprovar novos acordos de liberalização comercial.
O máximo que conseguiram, nos dois eventos, foi apressar o final da reunião e adiar algumas decisões para um outro – e próximo – momento.
Pela Internet, também, um grande número de mensagens que diariamente chegam às nossas caixas de correio trazem uma quantidade significativa de questionamentos e manifestos contra aquilo que se tornou a grande vilã de nossos tempos.
Mas será, realmente, que a globalização é alguma coisa que está sendo deliberadamente imposta à comunidade internacional com o único propósito, tão disseminado por seus oposicionistas, de criar uma nova ditadura econômica dos mais ricos sobre os mais pobres, ou simplesmente reeditar a escravidão, dividindo de forma definitiva o mundo em dominantes e dominados, como querem fazer crer os que a combatem?
Para se fazer uma análise mais justa e isenta do que ela representa faz-se necessário que nos reportemos às origens históricas desse processo. Mas até para definir o momento em que ele começou já se nos deparamos com uma grande dificuldade: a globalização não surgiu como decorrência de nenhum evento específico como uma decisão governamental em algum país, um movimento organizado, uma imposição de determinado grupo econômico, uma manobra política de alguma classe privilegiada, nem teve sua autoria assinada por qualquer categoria econômica dominante.
Existem experiências e teorias – envolvendo política, economia, necessidades sociais e mercadológicas – que começaram a ser desenvolvidas a partir de uma tendência absolutamente natural e inevitável, como o advento da tecnologia de informação e do vertiginoso desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. TV a cabo, comunicação por satélite, comunicação eletrônica em rede mundial, os sistemas de telefonia digital, para mencionar somente os mais importantes, são os exemplos mais comuns. De uma hora para outra, independente de poder aquisitivo, o grande público teve acesso a toda uma parafernália tecnológica que lhes permitia acesso imediato a muito mais informações do que ele poderia utilizar ou processar ao longo de toda a sua vida.
Essa democratização da informação, batizada de "a era da comunicação", mudou completamente a rotina de cada cidadão, inicialmente nos grandes centros e depois até nos mais remotos lugarejos de planeta. Sejam índios ou políticos, magnatas ou comunidades de baixa renda, deixou de ser exótico observar-se qualquer de seus integrantes utilizando um aparelho celular, ou se comunicando através de e-mail ou qualquer outra tecnologia de última geração.
De repente tudo passou a acontecer com velocidade meteórica: desde a popularização de um modismo, até as carreiras profissionais que dependam de um grande público. Se antes, para se tornar conhecido e um dia conseguir a fama, um artista precisara viajar por um único país ao longo de anos, agora ele pode ser "fabricado" pela mídia em um único "show" de impacto que leve sua imagem à milhões de pessoas ao mesmo tempo e o consagre como um "fenômeno". As grifes da moda são consumidas por todos os cantos do planeta, e o "McDonald’s, símbolo do capitalismo americano, se instala tanto na Praça Vermelha, junto ao Kremlin, quanto numa pequena cidade no sul do Líbano. Aqui cabe uma pergunta: será que se toda essa "internacionalização" fosse comandada por determinado interesse político ou econômico, com autores e objetivos pré-definidos, tais "invasões" econômico-culturais seriam tão pacificamente aceitas?
É evidente que o modelo "neo-liberal" que a globalização dissemina está todo calcado nos padrões capitalistas do ocidente, mas não é essa a questão que está em foco, mas sim o seu aspecto "epidêmico". O mesmo contestador que sai às ruas e atira pedras no palácio do governo também busca se beneficiar da queda de preços que a concorrência internacional desencadeia. O mesmo bem que ele compra por um deteminado preço é encontrado pela metade se a etiqueta for da China, ou da Koréia, por exemplo, onde a mão de obra é significativamente mais barata. Isso significa que todas as ações que ele adote contrárias à globalização, naquele mesmo instante estão sendo neutralizadas por milhares de pessoas que, fazendo uso das vantagens que ela traz, estão sem querer "fazendo o jogo" dos seus defensores, ou seja: contribuindo para sua disseminação em todos os cantos do planeta onde chegue a informação sobre um novo produto a preços mais vantajosos, ou copiando o modismo de um determinado lugar que está "em alta" na mídia.
Isso tem conseqüências graves? Sem dúvida: a curto prazo podemos dizer que elas podem ser bastante dramáticas e até nefastas: os grupos econômicos menos expressivos são "esmagados" pelos concorrentes que têm mais poder de fogo, que possuem estruturas mais leves e versáteis para "segurar a barra" por mais tempo. Jamais se viu tantas fusões e "joint ventures" como agora. Nunca se teve registro no mercado de tantos "devoradores" e "devorados". Os clientes não têm tempo de se acostumar com uma mudança, e lá vem outra em cima. Com as fusões, centenas de pessoas vão para a rua, e tudo parece perder o referencial, a lógica. Paira uma sensação generalizada de caos.
Mas aos poucos as pessoas percebem que se lhes impõe uma necessidade de aprender outras formas de sobreviver. Descobrem em si mesmas talentos que nunca exploraram, e aos poucos vão se encaixando em uma nova ordem de coisas. Sem apologia do sucesso nem romantismos, diga-se que nem todos conseguirão "dar a volta por cima", e é nisso que se afirmam os "opositores" para seus veementes protestos. Infelizmente, para eles, está já bastante evidente que, independente do que façam, nada mudará o rumo do processo: existe uma tendência crescente dos países de unificar suas formas de consumir, de falar, de se comportar e até de pensar. Queiram ou não queiram os que a combatem, a globalização veio para ficar.
A economia é apenas um dos aspectos, entre muitos outros, que estão passando pelo processo de globalização. Com absoluta certeza, já é um processo inevitável e totalmente irreversível. A grande "aldeia global", de que falava Marshall MacLuhan, já é uma realidade, e não nos resta alternativa a não ser descobrir o mais rápido possível como nos adequarmos às novas regras para, ainda que seja impossível neutralizar totalmente, pelo menos minimizar os seus efeitos negativos. Que o caos vai passar, não há dúvida que vai. O negócio é sobreviver até lá...
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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas. Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.