O Elefante de Circo e a Nova Organização
Consultor de Plantão nº 07
*
Luiz Roberto Bodstein
Já foi tempo em que a administração podia ver o homem como um ser passivo
motivado apenas por dinheiro, vantagens e estabilidade no emprego.
No Brasil, este fato começou a ser sentido de forma mais acentuada a partir dos
movimentos de abertura política, onde palavras como democracia, mutirão,
co-gestão, cooperativismo e associativismo, levadas a termo por associações
de bairro, de classe, etc., deixaram de estar associadas somente a conquistas
para adqui-rirem antes de tudo um sentido de participação.
As organizações, até meados da década de 60, no Brasil, necessitavam de
muito trabalho manual, e o que media a eficácia do trabalhador era a quantidade
e, em menor nível de importância, a qualidade produzida. Para a organização
alcançar bons resultados bastava um cérebro dominante e muitos braços
executantes. Entretanto, com o surto do desenvolvimento tecnológico aliado ao
aumento da competitividade do mercado com uma exigência cada vez maior pela
qualidade, as organizações foram, e continuam sendo, obrigadas a se
modernizarem. Para isto não basta apenas adquirir ou instalar equipamentos
modernos, deve-se também contar com funcionários cada vez mais preparados,
cujo trabalho intelectual passa a ser o fator determinante do sucesso da
organização.
Quando falamos em surto de desenvolvimento tecnológico, manifestação do desejo de participar e importância do trabalho intelectual em relação ao braçal, estamos contando uma história de apenas 20 anos, que começou a tomar vulto na última década do século XX, e este período é muito pequeno para um total rompi-mento com os paradigmas anteriores. A grande maioria dos profissionais que hoje constituem a alta administração das empresas foi formada num período em que os conceitos de administração e a própria filosofia de trabalho eram completamente diferentes dos atuais. Daí que uma significativa parcela desses profissionais ainda não se conscientizou da necessidade de atualização e aplicação de novas técnicas de administração , o que atrasou em muito o nosso ingresso na corrida pela Qualidade.
Nos últimos anos houve uma grande arrancada para diminuir essa diferença, e o Brasil suplantou até mesmo os Tigres Asiáticos na busca pela Qualidade Total.
Somente em 1994, no auge dessa "virada", aumentamos
em 13% o número de empresas certificadas em sistemas de garantia de qualidade,
ou envolvidas em programas de implantação de Gestão pela Qualidade Total,
enquanto a média mundial vinha se mantendo em 10% anuais. Esse esforço
concentrado, da déca-da de 90, reservou-nos um espaço entre as comunidades
mundiais quando se fala em competência e competitividade, e garantiu o respeito
de muitos países quando o produto importado é brasileiro, o que nos coloca
sobre os ombros uma grande responsabilidade.
Quando Collor se referiu a nossos automóveis como "carroças" e
mergulhou na sua aventura de nos colocar no primeiro mundo só se enganou quanto
ao enfo-que: não era a tecnologia por si só que poderia mudar essa realidade,
mas a consciência da nossa própria capacidade e o investimento nas pessoas.
Durante décadas reagimos exatamente como o elefante de circo, que sente a
resistência da corrente que o liga a uma pequena estaca cravada no solo e
acredita que ela realmente é o que o mantém cativo. A arrancada libertadora
só vêm quando a auto-confiança se instala, abrindo espaço para a
auto-suficiência.
É, pois, momento de participar, de criar um estilo de gerenciamento adequado às necessidades nacionais e nos atermos às técnicas que o mercado internacional e a nossa própria experiência consagraram como eficazes, analisar as causas das falhas no passado, trocar experiências em encontros permanentes de "benchmar-king" e buscar soluções conjuntas.
Tudo isto só será possível, porém, com Administradores e Gerentes preparados para este novo momento, convencidos de que a Qualidade não é mais uma palavra de ordem de um modismo como tantos outros que vieram e se foram, mas algo que veio para ficar, um processo irreversível que oferece carona a tantos quantos queiram comprometer-se com sua filosofia, mas que também, como todos os grandes eventos que mudaram a história da humanidade, só nos convida uma única vez, para que embarquemos com ela ou nos condenemos a perdê-la de uma vez por todas, posto que a história jamais espera pelos retardatários que não desenvolveram sua visão enquanto podiam usufruir de seus efeitos.
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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas. Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.