ÉTICA
NAS LIDERANÇAS: A BUSCA DA
POSTURA ASSERTIVA
Consultor
de Plantão nº 09
O inexpressivo índice de consciência política, de que o país tanto se
ressente, é conseqüência direta da pouca cobrança por atitudes mais éticas
e perfis mais assertivos no exercício da liderança, seja no dia a dia das
empresas ou em atividades políticas, como também da forma de comunicação que
constrói a mentalidade vigente.
*Luiz Roberto Bodstein
Ocupantes de cargos que possuem ascendência
sobre um grande número de pessoas, órgãos que têm como função disseminar
informações para o grande público, ou enfim, quaisquer canais que se prestem
a atuar como formadores de opinião no Brasil estão precisando introduzir, de
forma concreta e permanente, métodos precisos de pesquisa e coleta de dados
antes de, simplesmente, levantar discussões polêmicas e inócuas, sem nenhum
fundamento científico, que só servem para conturbar os ambientes onde se
instalem.
Sente-se, de uma maneira geral, a falta de exposições claras,
honestas e, o que é mais importante, isentas, por ocasião da discussão de
questões relevantes. Antes de polemizar sobre fatos que irão interferir de
alguma maneira na vida das pessoas, há que se considerar a importância de
apresentar um histórico real e comprovável, e explorar todos os seus aspectos
de forma imparcial, permitindo que as pessoas concluam por si mesmas. Essa é a
postura que está faltando para a ética na disseminação de notícias, no
exercício das lideranças ou na abordagem de uma discussão, tanto nos assuntos
do cotidiano quanto nos grandes temas que atingem à cidadania de toda a população.
Existe uma frase já consagrada dentro dos meios empresariais, com
o advento dos programas de qualidade, que preconiza que "dados
convencem, meras opiniões confundem". Observando-se a gama de informações
geradas em torno de temas de grande vulto percebe-se que um tempo excessivamente
longo de discussões por todos os meios de comunicação não são suficientes
para que se chegue a conclusão alguma, prestando-se tão somente a confundir
cada vez mais aqueles que tentam entender o que está acontecendo. Tudo porque
as pessoas envolvidas nesses embates não têm a menor preocupação em buscar
as origens dos fatos ou, pelo menos, conhecer-lhes o histórico ou reunir
elementos técnicos para apresentar dados confiáveis e fundamentar
suas posições.
Com isso acabam fazendo com que questões imprescindíveis, que mereceriam toda uma análise consciente e madura de prós e contras
- balizada em circunstâncias reais e insofismáveis - tenham subtraído todo o
seu caráter de seriedade e credibilidade, e se comparem a outras de somenos
importância, que infestam o nosso cotidiano de "disse-me-disses".
Perdemos todos excelentes oportunidades de aprendizagem transformando discussões,
que poderiam ser mantidas em altíssimo nível, em algo muito próximo de
"fofocas" ou "futricas de comadres", como as que populam
diariamente pela mídia sensacionalista, ou em pouco diferindo destas.
Todavia sabemos que, por mais fundamentados que estejam os
argumentos que se apresente, sempre haverá o impasse das convicções pessoais,
muitas vezes até com raízes em "lógicas" e idealismos honestos, porém
tendenciosos. O ser humano está permanentemente sujeito a construir suas opiniões
de forma nem sempre norteada pelo estudo pessoal aprofundado ou uma pesquisa prévia
dos fatos. A necessidade de se integrar, de encontrar uma identidade de
pensamento com outrem e, mais do que tudo, de ser aceito no seio da comunidade a
que pertence - ou que escolheu para pertencer - faz com que ele, na maioria das
vezes, escolha adotar uma opinião já formada desse grupo do que desenvolver a
sua própria. São as chamadas "correntes ideológicas". É
extremamente mais cômodo levantar uma bandeira que já tem mastro do que ter
que construir-lhe uma sustentação, e ainda ter que provar que ela é segura.
Maslow fundamenta muito bem essa questão na sua tão difundida "Teoria
das Necessidades Humanas", e a Carl Marx atribui-se uma famosa frase em
seu leito de morte quando teria dito: "Eu não sou Marxista!,
deixando patente a sua decepção com o produto em que se transformara a sua
concessão ideológica do regime socialista na mão dos seus pretensos
seguidores.
A verdade - conhecida por qualquer psicólogo - é que a lógica
coletiva não reproduz necessariamente a lógica individual, às vezes até se
contrapondo a ela, numa espécie de autofagia individual por agregação,
pois simplesmente os indivíduos abrem mão de sua linha de raciocínio em prol
de outra que passa a existir a partir da fusão de suas idéias, num processo sinérgico,
mas não necessariamente consensual.
É muito mais comum, nós o sabemos bem, ver pessoas sendo
levadas mais por essa "lógica de massa" do que por um posição
consciente, resultante de um processo analítico racional. Os chamados "líderes
carismáticos" são pessoas que ocuparam tal posição de destaque na
maioria das vezes porque tiveram a coragem de afirmar suas posições mesmo sem
um respaldo anterior, e estes não raramente são levados, eles mesmos, por
estados emocionais exacerbados e totalmente desprovidos de análise detalhada de
todas os aspectos da questão, além de critérios, equilíbrio e,
principalmente, imparcialidade.
Personalidades
tidas como ícones oposicionistas são pessoas que se colocam
efetivamente contrárias a tudo o que um governo tenta implementar, independente
do que venha a resultar, numa postura típica do "hay gobierno, soy
contra", e preferindo, ao invés de buscar elementos factuais nos seus
arrazoados, partir para violentos "protestos de indignação". Suas
famas fazem-se em cima de posições rígidas e sobre uma tradição de
"peitar" as "decisões arbitrárias das classes
dominantes".
Esta fama também é um forte componente alimentador de suas
vaidades pois, uma vez consagrados como líderes de oposição, é
preciso que haja constantemente uma grande decisão a que se opor para afirmar
essa imagem e, assim, preservar o respeito de seus liderados e manter seu poder
e ascendência através de um incontestável "histórico de lutas". A
regra que predomina é que quando não aparece nenhuma questão suficientemente relevante ou
digna de se contrariar, cria-se uma, ou esse líder pode cair no ostracismo e
seu prestígio entrar em baixa.
Daí se entende porque da permanente evidência na mídia de algum
"profeta do caos", mesmo quando todos os indicadores econômicos, políticos
ou sociais mostrem-se em linha ascendente de forma mensurável e inequívoca. A
afirmativa de que a defesa de um argumento de qualquer natureza temática, seja
de aprovação ou de repúdio, da situação ou da oposição, tem, como quesito
indispensável, bom-senso e compromisso com a verdade, não passa para eles de
retórica nas tribunas e palanques: o que prevalece aqui são os interesses
pessoais disfarçados de altruísticas defesas da causa pública. Para estes não
faltarão discursos de "fraude em pesquisas", "manipulação de
dados", "sonegação de informação", e tudo o mais que puderem
levar à público para desempenhar seus papéis, utilizando a seu favor a máxima
de que "para quem não acredita, nenhum argumento é suficiente, e para
quem acredita, nenhum argumento é necessário".
O fator negativo é que, por ter à sua volta toda um séquito de
"seguidores" que há muito já abdicaram de suas prerrogativas de
pensar para simplesmente se deixar guiar por seu líder, seus discursos
inflamados se transformam em perigosas ameaças à ordem e à sobrevivência das
instituições legais constituidas, pois saem atropelando tudo o que se lhes opõe,
antes mesmo de formar juízo sobre uma proposta que seria mais adequada para
substituir aquilo que querem derrubar.
Ficamos todos, de uma forma ou de outra, à mercê de tais
impulsos: de quem tem a maior força, de quem detém o maior poder de
convencimento, e/ou de quem tem a maior ascendência sobre o coletivo, e isso
nem sempre recai sobre os mais equilibrados. Dir-se-ia até que é muito mais
comum recair sobre os mais exaltados, naqueles que têm no equilíbrio sua última
preocupação na hora de contestar, posto que excessos emocionais se prestam
como poderosos instrumentos de manobra de massa. Tais pessoas, quando em posição
de ascendência, fazem uso da emoção como uma grande aliada para "mexer
com os brios" dos seus adeptos, capaz de levá-los de uma explosão instantânea
ao fanatismo ideológico e permanente que não conhece limites.
É na exaltação inflamada que tais líderes buscam a garantia de
um melhor resultado, produzindo um maior impacto sobre seus liderados e sobre
aqueles que não têm uma posição pessoal definida, o que, infelizmente, é a
maioria. A prova disso é que personalidades doentias, das quais a política
internacional nos tem dado muitos exemplos, conseguem sobrepujar valores históricos
de nações inteiras e impor suas crenças e ambições radicais - sejam de domínio
ou até de auto-destruição - aos que os cercam. Nisto, acredita-se, reside o
seu "magnetismo pessoal" ou a característica de "líder carismático"
. Na verdade sua maior qualidade é a coragem de ousar, mesmo quando defende o
caos, pois o motivo real mesmo fica por conta da ignorância e comodismo dos que
lhe delegaram a prerrogativa de pensar e decidir por eles.
Líderes assertivos - e isso implica em qualidades como transparência, imparcialidade, equilíbrio, convicção e firmeza - ainda são bastante raros. Mas a cada dia a história nos ensina - ainda que a duras penas - que a repetição de erros tem um preço social demasiadamente elevado, e percebe-se nitidamente a evolução da mentalidade cívica e da consciência política no cidadão comum, que está se tornando mais exigente na escolha dos que deverão conduzir os seus destinos, o que já não era sem tempo.
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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas. Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.