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COMUNICAÇÃO É ASSIM TÃO SIMPLES?

Consultor de Plantão nº 14


Comunicação é realmente algo tão simples que qualquer um pode exercitá-la bem sem precisar de qualquer técnica para entender seu funcionamento?    Parece que sim, não é mesmo?  Mas as coisas que parecem mais óbvias são  as   que geram mais conflitos justamente por  todo mundo achar que é simples demais para se dedicar algum tempo a estudá-las.  Se esse for o seu caso, coloque as barbas de molho:   você  pode  estar  tornando  as  coisas  muito  mais  difíceis  no seu  convívio  diário por não ter consciência da sua responsabilidade no processo de se comunicar com os outros e não fazer uso de algumas regrinhas básicas.   

Luiz Roberto Bodstein        

O  processo de comunicação, por incrível que pareça, não é assim tão simples como se pensa, apesar da maioria pensar o contrário.   Aliás, pode-se afirmar que a grande maioria não sabe sequer fazer a distinção entre dados, informação e comunicação.   Poderíamos então começar pela conceituação destes três elementos fundamentais para o relacionamento humano, mas também presentes e fundamentais na vida das demais espécies, ainda que de forma instintiva.   

Mas é justamente entre nós, seres racionais, que a comunicação se processa de forma menos eficaz, pois as pessoas precisam ter consciência de todos os seus componentes para que ela aconteça tão bem quanto entre as demais espécies vivas, que já nascem sabendo disso por questões de sobrevivência. 

 

Vamos então às conceituações de que falamos acima.   Dados são registros ou referenciais a respeito de um determinado evento ou ocorrência.   Para um animal selvagem, por exemplo, um ruído na mata ou vestígios de sangue percebidos no solo podem ser referências da presença de inimigos ou de comida.  Para nós, uma data de nascimento, nomes de família ou de uma cidade também seriam apenas dados, pois isoladamente não fazem muito sentido.

 

Quando um determinado número de dados se junta e adquire um significado, o conjunto então se transforma em informação.   O ruído e o sangue de um animal abatido acrescidos de um tiro ou da aparição de caçadores, por exemplo, para o animal significa risco de vida.  A informação faz com que ele empreenda uma tentativa de fuga.   Igualmente, os nomes de família com uma data de nascimento e de uma cidade natal reunidos em uma certidão também se transformam em uma importante informação para nós:  é um registro de nascimento de alguém, ou um documento comprobatório de sua existência.

 

Mas até então não temos nenhum processo de comunicação.  Este só é estabelecido quando a informação é transmitida entre dois seres - mesmo que de espécies diferentes - mas desde que esta seja recebida, compreendida e compartilhada entre o emissor e o receptor da mensagem.  Significa dizer que a informação simplesmente transmitida mas não recebida - ou não compreendida - não foi comunicada.  Informação é só a passagem de dados de forma linear (como alguém ouvindo um noticiário pela TV).  Comunicação é um cliclo:  tem que atingir o receptor e retornar ao emissor como mensagem assimilada, como fazem machos e fêmeas das espécies animais:  um emite um som como convite, o outro responde informando que ele foi aceito.

 

Com certeza você já se viu naquela conhecida situação em que alguém chega perto de você e lhe cobra uma resposta ou uma ação sobre algo do qual você não tem nem idéia do que se trata.   E o pior de tudo é que, ao ouvir sua alegação de que não pode atendê-lo porque você foi pego de surpresa ou a ação solicitada está "caindo de pára-quedas" na sua agenda, vem aquela inevitável resposta:  "Mas eu disse isso prá você na semana passada!".   E sõ lhe resta engolir em seco e vestir a carapuça de que o errado é mesmo você.  

 

Isso me faz sempre lembrar de uma propaganda da TV de uma conhecida marca de tubos de PVC em que um mico pula de um ombro para outro no momento em que o sujeito se esquiva da responsabilidade que lhe cabe na situação produzida.  Quantos desentendimentos poderiam ser evitados se as pessoas simplesmente se conscientizassem dos vários momentos da comunicação e a quem cabe a responsabilidade por todas as conseqüências de uma comunicação mal feita.  Veja no esquema abaixo quais são esses momentos:

 

 

 

Pronto!  Agora fica fácil entender como se processa a comunicação.  A linguagem (código) é definida pelo receptor porque, caso ele tenha alguma deficiência como surdez, cequeira, ou até uma simples dificuldade de compreensão, o emissor terá que colocar a mensagem da forma que ele possa compreendê-la (visual, em braille, na língua pátria do receptor ou bem simplificada, por exemplo).   O canal escolhido para a transmissão poderá ser a escrita, um filme, um gráfico, a própria voz do emissor, ou o que for mais adequado para que a mensagem seja absorvida pelo receptor. 

 

A recepção costuma ser o grande problema, e motivo de muitos conflitos. O receptor pode dar um feedback falso, como um "hã-hã" ou até um "entendi", dito distraidamente enquanto ele estava concentrado em alguma outra coisa (o cérebro irá respeitar a ordem de importância do receptor para estabelecer a ordem de decodificação) e aí estará armada a confusão.  O Emissor aproveita, "passa o mico" para o ombro do receptor e lava suas mãos, acusando-o mais tarde de usar de desculpas para não cumprir o que foi pedido.  O que as pessoas realmente interessadas em  se comunicar precisam entender é que o receptor que assim age não tem a menor culpa por fazê-lo dessa forma.   A resposta distraída é meramente um recurso do cérebro para manter a prioridade estabelecida no inconsciente do receptor, e sua resposta não significa um feedback real de compreensão da mensagem, ou seja:  a responsabilidade por ela continua sendo do Emissor, que não poderá culpar o outro depois por não ter entendido.  

 

O comunicador responsável tem que prestar atenção se uma resposta imediata à mensagem, seja de que forma for, tenha sido o sinal de que realmente foi decodificada ou se foi um simples reflexo inconsciente do receptor.   Quem não está nem um pouco preocupado em se comunicar vai se aproveitar desta situação para culpar o outro mais tarde, e aí é que os desentendimentos se formam.   A atitude mais correta é cobrar o feedback verdadeiro:  "Fulano, você realmente entendeu o que eu lhe falei?"  E se uma pergunta assim direta causar constrangimentos (o interlocutor pode ser alguém de cerimônia) então caberá sempre uma saída inteligente "Fulano, às vezes tenho dificuldade de dizer as coisas de forma clara.  Você acha que eu consegui explicar bem?"  Isso será o suficiente para trazer o outro à realidade, com certeza, e ele poderá aproveitar até a "deixa" para, sutilmente, pedir uma repetição:  "Acho que realmente não entendi bem.  Dava prá você me explicar melhor?".   

 

Assim você terá certeza de que a mensagem foi assimilada e o feedback cumpriu a sua finalidade como instrumento de real incorporação da mensagem.  Para completar, lembre-se de que uma mensagem, para ser bem transmitida, precisa contar com o momento certo e o ambiente propicio.   Se você não tiver sensibilidade para perceber o momento impróprio do seu interlocutor, e nem o contexto ambiental totalmente inadequado para que a comunicação possa ser feita da maneira correta, é melhor voltar ao assunto mais tarde.   Se quiser fazê-lo assim mesmo e a outra pessoa posteriormente lhe disser que você não o avisou de nada, não vá culpá-la por isso:  foi você que "pagou mico" como comunicador, mesmo, e o miquinho continua no seu ombro.  Portanto não insista em jogá-lo para o outro!

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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas.  Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.

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