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GESTÃO PARTICIPATIVA: DE VÍTIMAS A AGENTES DE MUDANÇA

Consultor de Plantão nº 17

Como todo sistema social, a organização está sujeita à lei da sobrevivência e da evolução. E a velocidade de mudança imposta atualmente pelo ambiente externo às empresas é vertiginosa. Como  decorrência  desse  fato,  há  uma  ne cessidade contínua de preparar culturalmente as pessoas para aceitarem as mudanças, para conviverem com elas e se tornarem agentes, e não somente meros pacientes ou, pior ainda, vítimas delas.

* Luiz Roberto Bodstein               

 

As mudanças, à medida que o homem amplia seu campo de conhecimento, acontecem em velocidade cada vez mais vertiginosa. Assim, se pudéssemos compactar os últimos cinqüenta mil anos em apenas cinqüenta, eis que resultado obteríamos na cronologia da civilização humana:

 

    Há cinqüenta anos surgia no planeta Terra o homem de Neandertal, representante de uma nova espécie conhecida como "homo sapiens".

    Há dez anos ele deixava de habitar cavernas e construía sua própria moradia.

    Há cinco anos ele começava a comunicar-se por meio de linguagem estruturada, podendo a partir daí transmitir o que aprendia

    Há seis meses (1450) ele inventava a imprensa.

    Há apenas um mês (1880) Thomas Alva Edson inventava a lâmpada elétrica.

    Há três semanas (1906) Santos Dumont tirava do chão o primeiro veículo tripulado mais pesado que o ar (o "14 Bis").

    Há uma semana e meia (1950) o público tinha acesso a aparelhos de TV (Philips).

    Há uma semana atrás (1958) cruzava os céus o primeiro avião à jato ("Constellation").

    Ontem (1961) Yuri Gararin  deu o primeiro passeio no espaço.

    Há alguns minutos atrás (1969) a humanidade testemunhou, em transmissão ao vivo pela TV,  a caminhada de Neil Armstrong no solo lunar (Apollo 11).

    Há poucos segundos (1980) a Internet revolucionou os meios de comunicação em todo o mundo.

    Há algumas frações de segundo (1990) a telefonia celular passou a utilizar satélites em vez de fios para efetuar, por canais de voz e imagens instantâneas, o contato entre as pessoas.

 

            Os primeiros automóveis, ainda no início deste século, atingiam a velocidade de 18 quilômetros por hora, e os estupefatos vanguardistas da época acreditavam que o homem não resistiria com vida no interior de qualquer veículo que ultrapassasse a incrível marca de 24 quilômetros horários. Malgrado suas crenças e temores, pouco mais de 50 anos depois esse homem viajaria no espaço numa nave com uma velocidade de cruzeiro de 29 mil quilômetros por hora.

                        Como é que o homem tem resistido à velocidade com que acontece essa transição? Com certeza buscando superar-se a cada conquista, aproveitando o que já aprendeu para facilitar a obtenção do que ainda quer conquistar.

 

            O espírito de competição e de desafio é inerente à natureza humana, e  um dos fatores que faz com que se sobreponha a todas as demais formas de vida. Enquanto estas trazem a sua capacidade mínima e máxima pré-estabelecida, e repetem indefinidamente o mesmo "modus-vivendi", o homem não se compraz quando não vivencia novas experiências, se não consegue visualizar horizontes maiores do que aqueles que já domina.

 

A necessidade de avançar, de ir além, de superar os próprios limites, lhe é tão vital que, não o conseguindo, o ser humano definha e perde a sua razão de ser. Para ele não existem marcas definitivas, não existem ações últimas, não existem idéias insuperáveis, nem fronteiras para os seus anseios.  Ele os leva até o infinito.  Evidência maior são os heróis contemporâneos das nossas olimpíadas: eles vêm sucessivamente superando as suas marcas desde que, pela primeira vez, experimentaram seus limites na primeira olimpíada da antiga Grécia.  O desafio é quebrar sempre o último recorde, é buscar – sem nunca esgotar – um ponto além de tudo o que já foi feito até aquele momento.

 

            O motivo pelo qual o século 20 foi apelidado "O Século da Pressa" é que apenas na sua primeira metade inventou-se mais coisas do que ao longo dos milhões de anos anteriores da história da humanidade. E a velocidade com que ele deixa para trás a sua última conquista e se lança na busca de outra, é sempre crescente.

 

            Quanto maior a dificuldade que encontra, maior ainda se torna a ânsia do homem para derrotá-la e suplantar a sua própria marca anterior. Seus desafios não se resumem ao momento da competição com outros homens, quando prova perante os outros a sua superioridade.  Nos momentos em que não está fazendo isso, busca continuamente competir consigo mesmo, exercitando-se para superar sua última marca, expandindo-se interiormente para atingir o patamar seguinte, nunca antes atingido.

 

            Voar cada vez mais alto, atingir pontos cada vez mais distantes... até onde pode chegar esse anseio humano? Até que ponto sua capacidade física, intelectual ou até - se formos além - espiritual, lhe permite chegar? Ainda que jamais consiga divisar a sua meta final, o homem sente necessidade de dar mais um passo. No seu íntimo sabe que é imprescindível continuar expandindo os seus limites.

 

            Os atuais métodos de gestão procuram instituir nas organizações uma cultura de mudança, ou seja, uma mentalidade em que a mudança possa ser assimilada como algo necessário e importante para o desenvolvimento da empresa e das próprias pessoas que nela trabalham. Dentro dessa cultura, não existe um ponto ideal a ser atingido e, assim, concluir o processo, mas sim uma busca permanente de melhorias que poderia ser comparada a uma interminável espiral que segue rumo ao infinito. Esse conceito é expresso dentro dos chamados princípios, preconizados pela Qualidade, como os da “Constância de Propósitos”, da “Melhoria Contínua” e da “Busca da Perfeição”.

 

Descobriu-se recentemente que o que assusta as pessoas e gera resistência às mudanças é o aspecto de desconhecimento do que virá a seguir. Elas receiam que as mudanças impostas a uma situação que já dominam possam representar perdas de suas conquistas, como "status quo", bens materiais, ou de outros fatores que se traduzam por segurança.

 

            Em um ambiente de maturidade e consciência, as mudanças promovidas pelas pessoas (agentes) devem ser cuidadosamente planejadas e amplamente discutidas com todas aqueles que, de alguma forma, estarão submetidas a elas, seja como agentes ou pacientes, para se adequarem à nova realidade que irá promover.  E quanto às demais – não previstas ou involuntárias – um adequado planejamento estratégico pode retirá-las do rol das situações tidas como "fora de controle" e inseri-las no elenco daquelas para as quais se poderão estabelecer ações preventivas – de forma a evitar que ocorram os desvios – ou contingenciais, para as quais se podem montar planos de reação aos efeitos indesejados de forma a mantê-los dentro de uma margem de risco planejado, em que o processo sofra a menor interferência possível e permaneça sob condições aceitáveis. 

 

Via de regra, porém, não são as mudanças contextuais que assustam mais as pessoas. Elas têm mais medo é das promovidas intencionalmente, principalmente quando não entendem os critérios sobre  os quais se fundamentam, e muito menos conseguem visualizar se ela significa evolução ou virá a se configurar em perdas em um futuro próximo.

 

            O sentido da gestão participativa extrapola as fronteiras da organização, havendo a necessidade de uma constante interação com seus clientes diretos, fornecedores, acionistas, controladores, parceiros e comunidade, através de canais de comunicação sempre abertos e com elevado grau de confiabilidade e eficácia, de forma que as mudanças - sejam contextuais ou intencionais - não venham a se constituir em ameaças, mas em formas naturais de evolução.  As pessoas deixam de alimentar qualquer receio pela mudança quando ela se transforma em sinônimo de melhoria, que deve ser sempre o critério que a justifica.

 

            Dessa forma podemos concluir que, para retirar o medo e eliminar nas pessoas a resistência às mudanças, o que os gerentes precisam fazer é discutir amplamente as mudanças que pretenderem implantar.  Isso vale tanto para o cliente externo quanto para o interno. Se as pessoas forem ouvidas, poder-se-á estabelecer critérios que atendam às suas necessidades e deixem claros os resultados que poderão ser obtidos, desde que haja convergência para buscá-los. A conseqüência mais imediata desse processo é a transformação de "pacientes assustados" em agentes comprometidos com as mudanças que se pretenda ou se faça necessário implementar.

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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas.  Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.

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