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AUTOCRACIA OU "LAISSEZ-FAIRE": A VIRTUDE DO CAMINHO DO MEIO
Consultor
de Plantão nº 21
O hábito de centralizar as decisões e
compartilhar apenas os efeitos negativos delas pode ser o caminho
mais rápido para o abandono do navio pela tripulação antes que o
capitão afunde de
vez o navio.
Rigidez excessiva
ou negligência na ação gerencial são igualmente
desastrosos quando a questão é administrar
uma organização. Transparência
e responsabilidade compartilhada em todas as etapas da
condução são fundamentais para garantir a sobrevivência.
*
Luiz Roberto
Bodstein
R elendo
de tempos em tempos a frase cunhada por Buddha de que “a virtude
está no caminho do meio”, não consigo deixar de refletir sobre
como um conceito aparentemente tão óbvio e simples como esse pode
assumir proporções tão absurdamente complexas quando transportado
para a realidade das empresas.
A pergunta que retrata bem
esse paradoxo é: como encontrar esse caminho do equilíbrio
entre a improvisação permanente de uns e o excesso de regras por
parte de outros? A primeira estabelece uma frágil linha divisória
entre o resultado bem sucedido e o fracasso, enquanto que a segunda
transforma as rotinas em um emaranhado de entraves burocráticos por
conta de posturas radicais que subtraem toda e qualquer
flexibilidade. Outro aspecto a
se perguntar é: como encontrar o ponto de equilíbrio entre a
autocracia centralizadora e o "correr solto" que só conhece cobrança
quando tudo já deu errado?
Disciplina. A palavra – que soa
como uma condição sine qua non para preservação da hierarquia
em qualquer estrutura organizacional – torna-se ainda mais difícil
de implementar quando, além de ser ignorada, contraria a própria
natureza de quem está à frente das decisões. As tentativas de
melhoria dos processos, então, transformam-se em uma árdua e
estafante tarefa que irá promover um crescente sentimento de
frustração e desânimo nos demais, culminando numa renúncia
definitiva ao desejo de promover mudanças por se perder a esperança
que isso seja possível.
Quando um dirigente apresenta uma
forte característica para a improvisação e/ou centralização, em que
se verifica absoluta ausência de planejamento das ações, pode se
tornar o pivô de uma situação inadministrável, que fica ainda mais
visível quando se cerca de outras que planejam e se organizam antes
de qualquer coisa. O maior complicador é a impossibilidade de
receber ajuda, uma vez que a tênue linha que separa o sucesso do
fracasso se estende e compromete todos à sua volta, pessoas e
instituições. Nesta situação o sucesso fica por conta da sorte e o
fracasso é uma ameaça real e muito próxima o tempo inteiro.
Em se tratando de algo
inconsciente, a reversão desse quadro pode acontecer a partir de um
esforço de reeducação; mas em se tratando de natureza da pessoa
todos os esforços se tornam algo cada vez mais próximo de
fantasia. Sendo a empresa um reflexo de seus dirigentes, pode-se
afirmar que toda uma cultura refratária a mudanças se instala a
partir de hábitos que são gerados pela alta administração. O
processo de irreversibilidade tem início quando, apesar de a
instituição estar dando mostras inequívocas dos erros a cada
momento, os dirigentes de recusam a assumir a responsabilidade por
eles, buscando sempre atribuir os problemas a fatores externos, como
ações de grupos contrários à gestão, ou situações contextuais de
mercado.
Estes são sinais de um ciclo
vicioso que se apresenta na seguinte seqüência: a ausência de
planejamento e de sistematização dos processos impede o
monitoramento das ações. Sem acompanhamento, as ações fogem ao
controle, compromissos são negligenciados ou simplesmente
esquecidos, e a insatisfação e o descrédito crescem entre os que
esperam pelos resultados. Os demais integrantes da administração,
percebendo o perigo, saem atrás “apagando os incêndios” e recolhendo
o entulho deixado ao longo do caminho. Os grupos contrários à
gestão, tão logo percebem as fragilidades, tratam de dar aos
problemas a maior visibilidade que puderem, enfatizando os erros
cometidos para mostrar que estavam certos, mesmo que não o
estivessem. Os “bombeiros” da administração acabam também recebendo
os “respingos” de todas as ações desastrosas ou da ausência de
monitoramento. Quando efetuam o diagnóstico da situação e “levantam
a lebre” com quem de direito, este se recusa a aceitar a
possibilidade de ser o fato gerador dos problemas. Insiste em
desviar o foco para a ação dos opositores ou para um hipotético
contexto desfavorável do mercado. Com isso os erros se sucedem e a
pressão externa também aumenta na mesma proporção. Dentre os demais
membros da administração, os que primeiro tomam consciência da
realidade e não são ouvidos tratam de abandonar o barco antes que
naufraguem com ele. Destes, alguns podem sair enraivecidos e ir
engrossar a massa dos opositores; outros podem desistir por se
sentirem impotentes para impedir o desastre inevitável, e se afastam
com um forte sentimento de frustração e mãos atadas.
Tão logo esse primeiro ciclo se
encerra, quem está no centro dele pode ter a impressão de que “o
pior já passou”, e de que a crise foi superada. Ledo engano! Como
no epicentro de um furacão, esse momento empresta uma falsa sensação
de calmaria. Aproveitando o breve período de relaxamento, o capitão
pode substituir as “baixas” por novos ajudantes-de-ordem e estes
remarem o barco por mais algum tempo. Só que a trajetória entrará
em “looping” novamente, um pouco mais à frente, e a cada ciclo se
tornará mais e mais enfraquecida. O final previsível então é só uma
questão de tempo. Caso típico de morte anunciada!
Mas é possível obter-se soluções
para uma situação que se apresenta dessa forma? Bem, isso irá
depender do grau de “refratariedade” que o centro do furacão, ou
seja, a alta-administração, for detentora. Se ela se recusar a
olhar para dentro e insistir em buscar as causas em fatores
externos, dificilmente essa estória irá de encontro a um final
feliz. Se, porém, ela baixar a guarda e se predispor a ouvir todos
os alarmes que estão soando, e buscar a causa dentro da gestão, com
certeza as chances de mudar a trajetória e superar as dificuldades
poderão ser transformadas em algo bem maior do que uma simples
hipótese. Mas, para isso, alguns passos decisivos precisarão ser
dados:
1. Descentralizar:
abandonar a pretensão de que se é auto suficiente e compartilhar os
macro-objetivos e estratégias com os demais integrantes do corpo
diretor;
2. Sistematizar as ações:
colocar tudo no papel, planejando as ações a serem cumpridas,
distribuindo-as entre as diferentes áreas e estabelecendo o
cronograma de execução;
3. Fazer monitoramento
sistemático: acompanhar a implementação das ações, discutindo cada
uma em reuniões pré-agendadas (check-points) e corrigindo a rota
sempre que necessário;
4. Respaldo aos
responsáveis: acompanhar a gestão dos processos propondo-se
a ouvir as dificuldades encontradas, oferecendo o suporte e a
logística para as correções, e o necessário respaldo à autoridade
dos que estarão à frente do processo.
Com estes primeiros quatro passos,
em que as decisões são compartilhadas à priori, cada integrante da
gestão saberá o que se espera dele, assume com mais segurança a sua
parte e, o que é melhor, não se sente agredido nem injustiçado com
as cobranças, uma vez que não “pegou o bonde andando”, não teve que
receber a rebarba de todos os erros que ele não soube sequer de onde
surgiram, principalmente quando nada mais pode ser feito para
repará-los.
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Luiz
Roberto Bodstein é
Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão
pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas.
Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio
Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.
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