A DIFÍCIL HORA DE PEDIR AUMENTO
Consultor de Plantão nº 24
Entrevista com o Consultor Luiz Roberto Bodstein* concedida para a jornalista Natasha Stein, responsável pela seção de Mercado e Trabalho da Revista Paola, dirigida ao público feminino.
O texto resultante da entrevista foi publicado na edição de número 4, à página 14.
Revista Paola - Qual deve ser a abordagem ideal para um pedido de aumento ?
Luiz Roberto Bodstein - Antes de qualquer coisa é fundamental estar bem fundamentado para o pedido, ou seja, ter-se plena consciência de que a atuação do profissional esteve dentro das expectativas e, conseqüentemente, existem argumentos para sustentar a solicitação. Outro fator importante é o relacionamento existente entre o funcionário e o superior para o qual ele estará pedindo aumento: se a relação entre ambos for difícil ou estiver desgastada, dificilmente o chefe estará predisposto a ouvir seus argumentos e julgar a questão com a necessária imparcialidade, a menos que saiba separar muito bem as coisas, o que nem sempre acontece.
RP - Por onde é que se deve começar para tornar o superior disposto a ouvir e estudar a solicitação ?
LRB - É sempre positivo começar fazendo uma avaliação comparativa de cargos e salários em nível de mercado com os da empresa onde se trabalha. Isso dá subsídios para desviar a questão do aspecto puramente pessoal e direcioná-la para uma abordagem mais técnica, além de que facilita o diáglogo e otimiza o assunto, evitando que se perca em explicações desnecessárias.
RP - E
qual deve ser o tom da conversa? Pede que seja formal ou é preferível mantê-lo
em clima bem descontraído?
LRB
- Isso vai depender do grau de
intimidade e camaragem existente entre chefe e funcionário. Se o relacionamento se
manteve no estritamente profissional e sem maiores intimidades, não
é de bom tom forçar barra para parecer informal, pois fica evidente tratar-se
de uma manobra para conseguir-se o que se pretende. Mas se naturalmente se
desenvolveu um clima de informalidade na relação, é natural também que esse
clima seja mantido na hora de se falar sobre o aumento, pois algo diferente
disso poderia passar insegurança ou inconsistência. A manutenção das
mesmas condições existentes até aquele momento facilita o diálogo
e dá liberdade a ambos para dizerem claramente o que pensam, sem
constrangimentos ou subterfúgios. A firmeza na hora de expor pensamentos
não precisa assumir postura de distanciamento ou rigidez.
Pode-se ser direto, claro e firme fazendo uso, simultaneamente, de descontração
e simpatia. O importante é não demonstrar inibição e justificar
suas necessidades pessoais sem muitos rodeios.
RP - Não fica difícil colocar de forma direta o que se pretende sem passar nervosismo?
LRB - Tudo é uma questão de convencer primeiro a si mesmo de que o pedido se justifica, e que o desempenho apresentado está coerente com as pretensões em termos de salário. A convicção de que isso é verdadeiro é um componente importantíssimo para se manter o auto-domínio. Antes de entrar na sala do chefe é bom lembrar-se de que não se está fazendo nada repreensível ou que mereça qualquer represália. É relaxar, respirar fundo e mostrar-se o mais natural possível.
RP - Chegar sem marcar hora ajuda a manter o clima de informalidade ?
LRB - Também vai muito do grau de informalidade existente entre ambos ou também da cultura instituida na empresa. Para algumas pessoas a interrupção pode ser um fator de resîstência para se mostrar disponível. Para outras pode ser hábito corriqueiro. Isso pede uma análise da característica pessoal do superior. Algumas empresas estimulam a informalidade e orientam seus gerentes para manterem as portas sempre abertas e ouvirem seus funcionários sempre que forem procurados, outras mantém uma certa distância entre os diferentes níveis da hierarquia. Se este for o caso da empresa, o ideal é marcar o horário que for mais propício e menos sujeito a interrupções. Tudo vai da realidade encontrada, lembrando sempre que nenhuma regra deve substituir a sensibilidade e o bom senso.
RP - Quais seriam os fatores mais importantes para se observar ao longo da conversa?
LRB - Alguns são imprescindíveis: o primeiro seria ater-se a fatos e dados, e não meramente a opiniões pessoais para demonstrar sua eficiência. Lembrar também que só ser eficiente não é fundamental: bem mais importante do que isso é mostrar resultados, ou seja, comprovar eficácia! Traduzindo: para a empresa não importa o quanto você é um bom funcionário, mas sim o quanto você contribui para que ela cumpra a sua missão e obtenha sucesso com o seu trabalho. Seu mérito deve ser proporcional à competência demonstrada. Isso fala mais alto do que qualquer argumento. Se o desempenho contribuiu para redução de custos ou para gerar mais retorno financeiro, esse também pode ser um componente bastante forte para a decisão favorável. Portanto, uma auto-avaliação a respeito da credibilidade e respeito profissional angariados ao longo da trajetória na empresa pode ser a garantia de que não se corre o risco de ouvir uma resposta do tipo: " O que você fez até agora para achar que merece um aumento?"
RP - Pode-se mostrar a diferença existente entre o salário que se ganha e o de um colega que está numa faixa bem melhor ?
LRB - Isso é totalmente desaconselhável por implicar em questões éticas. Ainda que uma defasagem desse tipo tenha algum peso psicológico ou prático no seu desempenho profissional, é sempre bom evitar esse tipo de comparação e concentrar-se nos aspectos positivos de sua atividade. Ainda que pelo aspecto legal a equiparação salarial seja um direito de funcionários de mesma função, a utilização do fato para justificar um aumento sempre irá depor contra a imagem do reclamante. O aumento até pode vir por essa via, mas com certeza o recurso de que se fez uso será contabilizado contra o funcionário.
RP - Existe um tempo mínimo de trabalho a ser observado antes de se procurar o chefe para pedir aumento ?
LRB - É claro que isso também é relativo. Existem profissionais que em um mês são capazes de trazer mais resultados para a empresa do que outros o fazem em anos de serviço. Mas em se tratando de Brasil, é muito difícil se falar em aumento com menos de um ano de serviços prestados à empresa. Além de ser um tempo razoável para se conhecer o profissional, praticamente existe um consenso em nosso mercado de oferecer compensações financeiras após a avaliação de desempenho que, normalmente, é anual. Salvo situações muito excepcionais, essa é a prática mais comum.
RP - E se, com todos esses cuidados, a resposta ainda assim for negativa?
LRB - Se estivermos falando de uma empresa séria, isso só se justifica se a organização estiver em momento de contenção de despesas ou se o superior do funcionário estiver atravessando um momento difícil, em que é pouco provável que se coloque receptivo para considerar com isenção todos os argumentos apresentados. Mas também pode-se reduzir esse risco buscando saber antes se uma dessas situações está ocorrendo. Se estiver, o ideal é esperar um pouco mais até que o contexto se mostre mais favorável. Se contudo nenhuma dessas precauções e atitudes positivas forem suficientes, então fica claro que a empresa não é o melhor lugar para se trabalhar, e aí cabe sempre se perguntar se vale a pena continuar nela.
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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas. Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.