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VERDADES E MENTIRAS
SOBRE A DEMOCRATIZAÇÃO DA QUALIDADE
Consultor de Plantão
nº 25
A
partir da década de 80 o governo começou a cobrar a implementação
de programas de qualidade para “colocar o país no 1º mundo”.
Mas o que ninguém revela é até que ponto as oportunidades
foram colocadas ao alcance de quem se dispôs a busca-las.
*Luiz
Roberto Bodstein
É
fato
que a globalização, com todos os percalços que promoveu, também
colaborou para disseminar referenciais por todo o globo e, dessa
forma, democratizar os conceitos da qualidade nos quatro cantos do
planeta. Mas engana-se quem acha que tal democratização
chegou de forma igual a grandes e pequenos.
A verdade é que as instituições providas de poder e
dinheiro puderam usufruir e atuar como alavancadoras do processo,
acelerando sua implantação e promovendo uma corrida no mercado
para garantir espaço. No
âmbito federal a era collorida
nomeou empresas especializadas – as nucleadoras – para
desenvolver programas de qualidade em todo o setor público com 90%
dos custos bancados pelo FINEP (órgão financiador do governo), o
que fez com que todos o buscassem (e quem não queria, sem
desembolsar quase nada?).
Mas
o setor privado não teve tal facilidade, o que gerou uma diferença
enorme entre as grandes – que podiam pagar consultorias para
garantir sua atualização com os novos conceitos – e as pequenas
que não tinham como bancar a implantação.
Dessa
forma o pequeno empresário legalizado viu-se na difícil situação
de enfrentar um fogo cruzado que não lhe dava muitas alternativas,
tanto pelo poder de fogo das grandes quanto pela imensa legião de
desempregados que, para sobreviver começaram a criar uma concorrência
cruel e desleal via mercado informal, oferecendo os mesmos produtos
e serviços por muito menos, já que não tinham que contribuir por
eles para a Receita.
Tal
situação ainda foi agravada por uma boa parcela das próprias
pequenas empresas que, buscando alternativas de sobrevivência, começaram
a formar parcerias com o mercado informal – através do qual davam
saída para seus produtos – dando-lhe mais força e aumentando as
dificuldades de quem se mantinha na formalidade, pagando todos os
tributos, já bem pesados, que fechavam o cerco sobre seus negócios.
Difícil
concentrar-se em conceitos como diferencial competitivo e
qualidade quando até o básico para a sobrevivência fica fora
de alcance. Daí que não se pode dizer que o mero acesso à
informação e aos referenciais que norteavam a quebra de paradigmas
era suficiente para mudar essa realidade, e fazer com que as
pequenas empresas conseguissem manter-se atualizadas e competitivas,
conforme tentava mostrar o governo, como se tudo dependesse apenas
de se estar consciente para a necessidade de mudanças e buscar as
fontes de informação.
O
resultado foi uma imensa “quebradeira” de micro e pequenas
empresas, por absoluta falta de políticas públicas voltadas para
protege-las, apesar de representarem mais de 99% das empresas
formalmente constituídas no país (fontes do IBGE), e empregarem
40% do contingente de pessoas economicamente ativas.
Parece que, para o governo, o percentual de menos de 1% das
grandes, que empregam os restantes 60% da população economicamente
ativa, é muito mais importante.
E
não é muito difícil entender porque:
as micro e pequenas empresas têm seu poder de fogo
pulverizado por uma série de motivos.
O primeiro é que não conseguem sair do vermelho pela total
ausência de incentivos reais, e se encontram sufocados de tal forma
pelos encargos dessa política pérfida de tributos que não
conseguem concentrar-se em mais nada a não ser em sobrevivência.
Não têm tempo para se atualizarem, para investir em
crescimento, nem para fazer reservas que lhes permitam reverter tal
situação. Dessa
forma não formam lideranças que possam representa-los
adequadamente e defender seus interesses.
Sem lideranças, não têm força para gritar, e como “quem
não chora, não mama”, que interesse tem o governo em reduzir
os lucros das grandes multinacionais e das instituições
financeiras – que bancam grande parte de suas campanhas eleitorais
– para tornar mais democrática a distribuição de mercado entre
grandes e pequenas?
Governos
do mundo inteiro pregam que qualidade é fundamental para sobrevivência
no mundo globalizado em que vivemos, e não há como contestar essa
realidade. A tal era
do cliente realmente democratizou referenciais para que
consumidores de todo tipo soubessem como cobrar o melhor para si de
seus fornecedores. Só
não ensinam como fazer o pequeno empresário ter acesso às mesmas
tecnologias que cobram indistintamente de grandes e pequenos.
O máximo que fazem é sugerir que unam suas forças em alianças
estratégicas para redução de custos ou complementação de
processos. Mas nem
sequer uma legislação decente para dar respaldo ao modelo de
associativismo econômico que sugerem até hoje foi criada, apesar
de todo um histórico revolucionário aplicado na década de 60 no
Japão, na África do Sul e em vários países da Europa, que
sanearam suas economias em tempo recorde, apenas investindo nas
pequenas empresas.
Parece
que, por aqui, o que conta ainda é o fisiologismo e interesses
outros que não se fundamentam no bem-estar comum, como querem
convencer-nos durante as campanhas eleitorais (ou eleitoreiras?),
mas no interesse de quem paga mais, em torno dos quais todas as
demais coisas acabam girando. T
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*
Luiz
Roberto Bodstein é
Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão
pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas.
Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio
Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.
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