ESTRATÉGIA NÃO É MAIS COISA DE ALTO EXECUTIVO
Consultor de Plantão nº 28
Ao contrário do que se imaginava, a globalização transformou o planejamento em uma das grandes preocupações dos novos tempos, com a diferença de ter acrescentado ao ato de planejar um forte componente de desafio: com os planejamentos de médio e longo prazos voltando à moda a partir da estabilização da economia, estratégia e multi-funcionalidade passaram a ser artigos de primeira necessidade para garantia de futuro nas empresas.
*
Luiz Roberto Bodstein
Com
um cenário político-econômico estável por mais tempo o planejamento se torna
extremamente facilitado: as situações que compõem cada realidade
durante um plano de ação tornam-se conhecidas e, conseqüentemente, previsíveis,
como acontece no planejamento de curto prazo. Neste,
há poucas chances de surpresas, e pode-se cobrir todo o período com ações
preventivas que serão suficientes para proporcionar uma significativa margem de
segurança e atender a praticamente todas as expectativas criadas. Os
imprevistos ficam por conta de falhas humanas como negligência por excesso de
confiança ou, simplesmente, imperícia na hora de montar-se o cronograma.
Se, no entanto, o plano de ação for executado pelas pessoas certas e
com os cuidados normais, o percentual de chance de se chegar ao
resultado esperado pode atingir com freqüência os 100%. Para facilitar o nosso raciocínio
precisamos entender o que é definido como planejamento de curto, médio ou
longo prazo. Em se tratando de empresas,
convencionou-se que um planejamento de curto prazo é aquele que não
prevê metas que devam ser alcançadas para além de três anos.
Não é difícil entender porque: nesse período
o contexto onde se inserem as ações sofrerá poucas mudanças ou, no mínimo,
estas não serão significativas o bastante para implicar em perda de controle
dos processos. Também o cenário político, em situação
de normalidade, não sofre grandes alterações: está dentro do período
mínimo de qualquer mandato governamental em vigência no mundo moderno, o que
pressupõe que as mesmas pessoas que montaram o planejamento estarão lá quando
a execução estiver concluída. O contexto econômico também dificilmente
passará por transformações de grande impacto; e a realidade social – que
tradicionalmente é a que muda com menor rapidez – terá ainda menos chance de
sofrer alterações que mereçam maior atenção. Podemos concluir, portanto, que
dentro do período de abrangência de um planejamento dito de curto prazo,
o cenário deva permanecer conhecido e estável. Como
fator de garantia, ações preventivas são suficientes para se evitar
desvios de rota e proporcionar certeza quanto ao sucesso. Outro
aspecto facilitador nesse tipo de planejamento é que um cenário conhecido trás
como conseqüência o domínio das ações : sabendo-se do que pode
acontecer ao longo de execução do cronograma, é natural que os executantes
estejam bem preparados para suprir algumas poucas surpresas e eventuais falhas.
Tendo-se conhecimento técnico apenas o suficiente para lidar com
atividades que já lhe são familiares, o agente do processo não terá grandes
dificuldades nem precisará se preocupar com outros quesitos.
Cabe ainda lembrar que ele estará lidando também com tecnologia
conhecida. Se não toda – em função dos rápidos avanços
hoje comuns – pelo menos em sua maior parte, o que não exigirá muita demanda
de tempo com aprendizagem. Cenário conhecido, ações
preventivas e domínio das ações, portanto, são os três componentes
presentes no planejamento de curto prazo que irão revesti-lo da confiabilidade
necessária para convencer os envolvidos: tanto aqueles que irão
colocar sua energia para concretizá-lo quanto os que precisarão acreditar no
retorno para aceitar bancá-lo, dar-lhe sustentação política ou
administrativa, e assumir responsabilidade pelo seu cumprimento. Um planejamento de médio
prazo, via de regra, é aquele que prevê ações que deverão estar concluídas
num período médio entre três e cinco anos. Ele irá
contemplar procedimentos que, em sua maioria, se assemelham muito aos aplicáveis
ao planejamento de curto prazo, mas também exigirá uma dosagem maior de
cuidados que o identificarão com aquele voltado para períodos mais longos.
Diríamos que a proporção está de 7 para 3, numa escala de 0 a 10, ou
seja: do total de ações programadas no plano de ação,
70% delas serão conduzidas como num planejamento de curto prazo, e as restantes
observando-se regras mais precisas como as utilizadas para planejamentos estratégicos
– que envolvem períodos de longa duração – foco da
nossa próxima abordagem. Ao contrário do que acontece no
planejamento de curto prazo, o estratégico se depara, antes de tudo, com um mar
de imprevisibilidades a partir de um cenário desconhecido e um contexto
incerto. Esse aspecto contextual é o principal fator
para se gerar ações e controles totalmente diversificados dos aplicáveis a
curtos períodos de tempo, a começar pelos de garantia: não se pode
fazer uso de ações preventivas quando não se sabe contra o
que devemos nos prevenir. O que fazer, então,
para reduzir a proporção de riscos e, proporcionalmente, aumentar a margem de
certeza quanto aos resultados? O primeiro passo seria, em
paralelo com os passos pré-definidos no cronograma, estabelecer-se ações contingenciais
que entrarão imediatamente em operação caso as ações preventivas não sejam
suficientes para se evitar o efeito indesejado. Ações
contingenciais não se prestam a evitar o dano, nem a corrigi-lo, mas tão
somente a reduzir seus efeitos ao mínimo de forma a preservar o controle do
processo, impedindo que tudo o que se fez até ali vá por água abaixo, ou seja
: manter o efeito indesejado dentro de proporções administráveis, até
que se descubra uma forma de eliminá-lo. Compara-se,
em linguagem tecnológica, ao tratamento dado aos "virus" do
computador: o componente de destruição é mantido ativo, porém
"em quarentena", de forma a neutralizar a multiplicação de seus
efeitos e permitir que a trajetória inicial seja retomada sem maiores
transtornos. Domínio das ações, em se
tratando deste tipo de planejamento, é o que menos conta, uma vez que a mudança
de realidades, no decorrer de períodos longos, torna obsoleto qualquer
conhecimento e exige permanente atualização. O aspecto
facilitador, aqui, será a capacidade de
aprendizagem, o índice de ousadia
para lidar com o novo e a pré-disposição para vencer desafios.
Muito mais que o conhecimento técnico, o principal quesito para o agente
do planejamento alcançar sucesso será a sua
visão de futuro, a sua competência para se
antecipar aos fatos e antever possíveis eventos que inevitavelmente exigirão
uma correção de rota. A característica mais
valorizada desse líder será a previsão, daí porque, apesar do enorme índice
de desemprego em todo o mundo, não faltam vagas para analistas de tendências,
os profissionais que conseguem estabelecer com precisão o momento de alterar
uma trajetória para adequá-la a uma realidade futura e não ser apanhado de
surpresa por ela. Tais pessoas são
especialistas em lidar com alterações de contexto, possuem elevado grau de
sensibilidade para criar ações contingenciais quando as preventivas falham,
trocam a segurança do domínio de ações pela facilidade de assimilação, e
convencem executores e investidores que a melhor qualidade de um planejamento é
a flexibilidade, em um
momento tão dinâmico que não se pode exigir confiabilidade nas ações originalmente
propostas. Para este profissional o
cotidiano é uma sucessão de ações inusitadas e desprovidas de acomodação
ao conhecido. Seu estímulo vem do desafio do novo, do
que foge ao que os psicólogos costumam apelidar de " zona
de conforto". Tudo tem que ser trabalhado
dentro de uma faixa de risco em que as alterações de rota são uma iniciativa
consciente e intencional para que o processo se mantenha coerente com a sua
proposta, e não uma exigência externa imprevista e desagradável.
Mudar, para ele, é um desdobramento natural do plano original, uma ação
de risco, sim, mas um risco planejado tecnicamente, e com grandes chances de se
obter o melhor resultado. Esse perfil que acabamos de
descrever é o desejável para um expert
em planejamento, um estrategista econômico ou político? Teoricamente
sim. Em princípio estas deveriam ser as características
buscadas num profissional que irá preencher uma função-chave, um executivo
para ocupar função de comando, de condução dos destinos da organização.
A pergunta que fica no ar, no entanto, é a seguinte: será que
essa exigência ainda está restrita a uma atividade tão específica quanto a
de profissionais de nível estratégico, ou será que a globalização está
estendendo tais critérios para um novo perfil profissional em um mercado bem
menos complacente? É provável que esta última alternativa
seja a verdadeira. Cabe então uma auto-avaliação se já
estamos preparados para enfrentar mais este desafio.
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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas. Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.