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PREVENINDO-SE CONTRA PROJETOS NATIMORTOS

 

 Consultor de Plantão nº 34

Não há nada mais frustrante, tanto para o profissional contratado para implantá-lo quanto para a empresa contratante, ver um projeto fazer água antes mesmo de serem percebidos seus primeiros resultados por conta de negligência por parte de ambos na análise de condições fundamentais para que o trabalho tenha pelo menos tempo de sobrevida para mostrar a que veio.

                                                                                                                           * Luiz Roberto Bodstein

 

Uma das questões mais complexas ao se iniciar um trabalho de consultoria é cumprir todas as etapas necessárias para fazer com que o programa de melhorias cumpra um período mínimo na chamada "internalização de processos" para começar a produzir resultados, já que existe toda uma gama de problemas que podem se antecipar até mesmo às primeiras ações e não dar sequer tempo para que o consultor comprove a eficácia do processo.   

A mais comum é a ansiedade por resultados, que já vem com os contratantes antes mesmo de tudo começar, uma vez que a nossa cultura nacional está toda sedimentada em cima de correção, ao invés de prevenção, e o profissional de consultoria - uma espécie de pronto-socorro de emergência - só é chamado quando a corda já está prestes a rebentar e ninguém mais tem tranquilidade para aguardar o "tempo regulamentar de jogo" para que as melhorias comecem a ser implementadas.  Neste ponto a angústia é tanta que a empresa contratante passa sinais claros de acreditar que o consultor é uma espécie de feiticeiro, que vai jogar um punhado de "pó de pirlimpimpim" sobre ela e puff!: no dia seguinte está tudo resolvido!  E quanto menos científica for a cultura interna, pior eles não terão sequer idéia de tudo o que irá acontecer, e etapas fundamentais de preparação a serem implementadas antes das correções serão consideradas como "perda de tempo".  Para reduzir este risco a empresa deve se certificar antes que está contratando o profissional certo, que ele está preparado para conduzir o projeto e que tem suficiente experiência em seu currículum para fazê-lo da melhor forma possível. Esse conhecimento com certeza vai contribuir para conter a tendência a "apressar as coisas", e aguardar que tudo aconteça dentro do tempo certo.  Se a empresa não o fizer, o consultor deverá fazê-lo, pois estará evitando para si mesmo muitos momentos desgastantes com "correções de rota" que nada têm a ver com o projeto encomendado. 

Outro fator de risco muito comum são interferências externas e internas que acontecem em paralelo e fogem às determinações a serem seguidas para garantir um bom andamento do programa de melhorias.  Elas acabam fugindo ao controle do consultor responsável e poderão colocar tudo a perder se não estiverem compatíveis com as diretrizes estabelecidas.  É fundamental que o profissional afirme a necessidade de se cumprir rigorosamente as recomendações, rejeitando a implementação de qualquer ação paralela sem checar antes esta está harmonizada com o processo em andamento.  Se os contratantes se mostrarem resistentes a cumprir esta orientação, então é melhor nem dar início ao projeto, pois fatalmente irá colocar o consultor em maus lençóis podendo, inclusive, "queimar" o trabalho e ameaçar seriamente a sua imagem profissional. 

Por parte da Direção é fundamental ter em mente que, antes de começar a cobrar coerência do seu pessoal com o programa de melhorias, as pessoas precisam de tempo para estarem aptas a darem respostas, e isso significa aguardar pela maturação de suas capacidades de atuação, uma espécie de "período de carência" de todo programa, que passa por três fases: a) quando elas absorvem a teoria, mas ainda não conseguem transportá-la para seu cotidiano de trabalho;  b) quando já entendem como acontece mas, por falta de hábito, não se lembram de utilizar a forma correta todas as vezes, revezando-as com o modo a que estavam acostumados, sendo necessário serem lembrados a todo momento que os procedimentos foram alterados; e c) quando, pela prática do monitoramento contínuo, finalmene incorporam a metodoloria e passam a agir dentro do esperado de forma automática e permanente, abandonando em definitivo a versão corrigida pelo programa.   

Outro cuidado importante é discutir profundamente com o consultor responsável a forma de prevenir os envolvidos contra os riscos de esvaziamento, como desmotivação por problemas pessoais, a idéia muito comum de que as ações do programa, aliadas às suas atividades normais, os deixa por demais assoberbados e não conseguem cumprir o cronograma, etc.  É importante ter consciência de que, inicialmente, o programa vai representar uma atividade em paralelo, sim, e que para isso precisarão organizar ou otimizar bem o seu tempo.  Mas, à medida em que caminha, tudo vai sendo ajeitado sem maiores problemas, pois a correção das ações vai substituindo as antigas - muito mais desgastantes e irracionais - a ponto de, a um certo momento, perceber-se claramente que se trabalha menos e se consegue resultados mais rápidamente.  Aí as pessoas entendem que suas atividades normais e o programa de melhoria não são duas coisas distintas:  as primeiras simplesmente representam O QUE deve ser feito, e as do programa, COMO isso pode ser feito da melhor forma.  Dois aspectos indivisíveis de um mesmo processo! 

Outra garantia indispensável para sobrevivência do programa, por parte dos dirigentes da empresa, é desarmar-se para não criar resistência a diagnósticos ou medições que identifiquem fragilidades, por medo de exposição, usando de maturidade para colocar o foco nos problemas, e não nas pessoas, lembrando que não existe forma de eliminar desvios sem conhece-los em toda a profundidade e, assim, entender a realidade da organização.  Por esse motivo é que programas de melhorias enfrentam um duro combate quando se deparam com ilicitudes ou intenções demagógicas de promover mudanças, que geralmente pretendem disfarçar seus reais propósitos.  Funcionários e dirigentes que se beneficiam da instutuição através desses expedientes são consideráveis canditados a "puxadores de tapete" na guerra santa que se travará entre o bem e o mal, politicamente falando, e se terá que redobrar os cuidados para não deixar que os boicotes, que fatalmente virão, interrompam a trajetória do programa. Um aspecto que conta muito para um resultado bem sucedido, através dos dirigentes bem intencionados da organização, é estar munido de bastante segurança com relação ao que quer, e disposição para enfrentar as dificuldades inevitáveis no processo, como ceticismo e/ou resistência de alguns desavisados ou da banda podre, que não vai deixar por menos para poder dizer mais tarde, estufando o peito: "não falei que era tudo uma furada?" 

É preciso ainda, por parte da contratante, usar de muita firmeza para dar sustentação às ações iniciais que ainda não permitem visualizar resultados, demonstrando maturidade para lutar contra a tendência ao imediatismo.  Não raramente a Direção em situação de sufoco quer queimar etapas e fica pressionando o consultor para pular do primeiro para o décimo degrau.  Só que um programa sério e consistente não pode atropelar os passos que precisa para lhe dar sustentação e firmeza, e tal atitude poderá ter o sabor de um tiro no próprio pé: acelera-se a coisa hoje para cair com toda a força lá na frente.  E é certo que a decepção se fará na mesma proporção das etapas puladas, ou seja: quanto maior o gigante, maior o tombo! 

Muitos desses problemas podem ser evitados quando o consultor, com sua experiência, não aceita um trabalho simplesmente pelo benefício financeiro que ele represente, mas com a consciência de que estará suficientemente preparado para enfrentar todas essas situações de forma equilibrada e com o máximo de transparência e profissionalismo.  Embora, com tudo isso, não possa ter nenhuma garantia de que tudo irá correr bem - pois a cabeça das pessoas é terreno que ninguém pisa - ele precisa certificar-se de ter removido, pelo menos no que lhe diz respeito, a maioria das pedras que poderá encontrar pelo caminho.   

Se considerarmos que, mesmo tomando todos esses cuidados, não estará livre de encontrar dirigentes inseguros o suficiente para não acreditar nem na própria capacidade para reverter suas dificuldades, podemos afirmar que nenhuma ação preventiva dará 100% de garantias de que tudo sairá bem.   Mas caso se proponha a reduzir o risco somente às situações alheias à sua própria competência, eu diria que antes de aceitar o trabalho ele deveria tomar alguns cuidados básicos de forma a não fazer "gol contra".  É preferível retardar um pouco o início do trabalho, mesmo com risco de perdê-lo por conta da ansiedade da empresa cliente, do que embarcar numa canoa furada, dar tudo de si para fazer o melhor que pode e, no final, sair com aquela amarga sensação bíblica de ter atirado suas pérolas aos porcos.  Para tanto é fundamental  situar-se bem quanto ao contexto envolvido, tal como:

a)  Explicar detalhadamente as etapas a serem cumpridas;

b)  Mostrar o tempo mínimo necessário para começar-se a colher resultados;

c)  Buscar conhecer o perfil da Alta Administração na organização;

d)  Investigar as reais intenções por trás do programa de melhorias solicitado;

e)  Conhecer o perfil dos integrantes da equipe estratégica de implementação (características e potencialidades);

f)   Levantar o histórico da organização com trabalhos semelhantes;

g)  Cercar-se de informações quanto a características da cultura interna e o modelo da organização, principalmente nos aspectos que possam interferir no trabalho;

h)  Buscar informações sobre a qualidade das relações entre os envolvidos, de forma a não "pisar em terreno minado" e entrar numa guerra que não é sua, ou ser usado como instrumento de manipulação de uma das partes, ou ainda bancar o "bode expiatório" para decisões contundentes que a Direção já havia decidido implementar mas que não quer assumir. 

 

Com relação à última sugestão da lista, é sempre bom lembrar que existem empresas que cultivam o hábito de contratar consultorias para fazer "o lado sujo" do trabalho, como demissão em massa - a título de necessidade de cortar despesas - por cuja atitude, mais à frente, não pretende responder.  Então é mais fácil chamar uma consultoria que assuma a decisão por elas e simplesmente faça o papel do bandido, pois depois é só receber pelo trabalho, dar o fora, que a Direção retoma o papel do mocinho na fita.  Diga-se de passagem que os dois lados são verdadeiros:  tanto existem empresas que preferem usar desse expediente quanto certos consultores que se prestam a fazer o papel em troca do generoso retorno financeiro que lhes prometem por isso.  Estes acreditam que existe muita empresa que prefere assim, e que nunca lhes faltará clientes.  Questão de escolha! ... E de consciência e ética profissional, é claro! 

Mas, seja qual for o caso, uma coisa é certa:  se qualquer das partes - seja o consultor interessado em pegar o trabalho ou o dirigente que queira faturar a autoria da idéia - utilizar como defesa o argumento de que a coisa é simples, desconfie!  A frase soa um tanto chula, mas cabe como uma luva para os dois exemplos: ninguém pense que vai encontrar o caminho livre pois, se fosse fácil, qualquer bundão fazia!