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ENTRE A OBEDIÊNCIA CEGA E A CONSCIÊNCIA

 

 Consultor de Plantão nº 35

O  cliente que está lá na ponta aguardando pelas melhorias que um novo programa contratado vai introduzir na organização não tem idéia do "contorcionismo" que muitas vezes o consultor precisa fazer para lhe oferecer um bom resultado.  Por conta de consultorias que se preocupam mais com o seu departamento de marketing do que com a área técnica, o profissional responsável pelo projeto irá "pagar um dobrado" prá conseguir cumprir o prometido, muitas vezes com risco de sua própria cabeça.

                                                                                                                        *  Luiz Roberto Bodstein

 

Alguns manuais para implantação de programas de qualidade desrespeitam a fundamentação básica do processo ensino-aprendizagem, próprio do período de internalização, que é o tripé Conteúdo-Metodologia-Interação  entre professor e aluno.  Isso significa que qualquer processo de ensino - e programas de qualidade também o são - precisa contemplar alguns requisitos indispensáveis para que produza efeito, quais sejam:  a) domínio do conteúdo pelo consultor, e que este conteúdo esteja identificado com os objetivos propostos;  b) método de transferência de tecnologia e transmissão de conteúdo compativeis com os requisitos do público-alvo e com o cumprimento dos objetivos; e  c) interação adequado entre o consultor e seu público de modo que haja plena identificação entre conteúdo e clientes para uma perfeita adequação da metodologia às suas necessidades. 

Na minha experiência com alguns programas pré-definidos pelas consultorias que representei junto ao cliente percebi que o conteúdo desenvolvido, ainda que excelente, tinha na metodologia de transmissão o seu maior inimigo.  Paradoxalmente, ela faz com que o instrutor que a respeite - conforme é cobrado - se torne menos eficaz do que aquele que a transgrida.  Feita posteriormente uma análise entre diversos consultores que a utilizaram fica fácil constatar que o "timing" de muitos tópicos estava irreal, às vezes totalmente incompatível com a relevância dos temas:  alguns pouco significativos com um conteúdo que demanda um tempo enorme para ser passado, e outros fundamentais programados para se "passar batido", com um tempo absurdamente pequeno para produzir a compreensão mínima necessária.   

Assim, se o consultor for mais preocupado com a programação do que com a didática, respeitando fielmente o "timing" previsto para o trabalho, irá sair do local convicto de que não atingiu os objetivos, e os participantes - o que é mais sério - sem saber distinguir entre o que era essencial e o que era dispensável do conteúdo que receberam.  Tais métodos simplesmente engessam o conteúdo como se todos os consultores que a utilizassem e todos os participantes do programa, sem exceção, fossem exatamente iguais.  A metodologia não considera os PESOS dos conteúdos, atribuindo valores iguais para tudo, levando em conta simplesmente o tempo necessário para que seja aplicado e desqualificando o grau de importância e a necessidade de ser devidamente "digerida" pelo público-alvo (incorporação), que representa a verdadeira absorção - consciente - do que é transmitido. Faz-se confusão entre passar conteúdo e transmitir conteúdo, que são coisas bem distintas.  Este último implica em decodificação por quem o recebe. 

Com tal metodologia toda engessada, cega à necessidade do consultor de atribuir maior ou menor grau de importância aos diferentes temas, e à necessidade de tempos diferenciados de "digestão" para alguns, o terceiro aspecto do tripé fica inteiramente prejudicado:  o consultor faz um trabalho corrido sem possibilidades de enfatizar pontos importantes, o seu público é atropelado - e desrespeitado - na sua necessidade de aprendizagem.  Enfim, a eficácia fica totalmente comprometida por uma total dicotomia entre os profissionais que montam ou vendem os programas, e os que estão na ponta do processo - como o consultor - para executá-lo.   

O consultor que tem preocupação em transmitir, e não somente passar conteúdos, precisa dedicar um tempo extra não previsto - e não remunerado - para complementar seus trabalhos de alguma maneira.  Nem sempre, porém, conta com esse tempo excedente, por razões de ordem profissional (compromissos com outros clientes), e se frustra com seu próprio desempenho. Isso sem contar os riscos de ser tomado por rebelde por subverter a ordem estabelecida. Só lhe resta então decidir entre entrar em conflito com o empregador ou com sua própria consciência, que lhe mostra que o cliente, no final de tudo, está sendo "embrulhado" caso ele compactue com a transmissão do conteúdo na forma prevista.  O resultado é sempre algo muito desgastante, em que o profissional se vê irritado com a metodologia que o obriga a atropelar a lógica da sua própria consciência e ainda com a sensação de ter oferecido um desempenho medíocre por tê-la obedecido, situação essa que coloca seus dois clientes - a empresa que representa e o participante que está a sua frente - em lados diametralmente opostos. 

Qualquer profissional consciente que trabalhe com tal realidade - e a maioria já passou por isso mais de uma vez - há de concluir que esse tipo de incongruência promove um esvaziamento de valores sobre os resultados que precisamos oferecer aos nossos clientes. Tais resultados é que nos mantêm atuantes, atualizados, e justificando o que fazemos.  Cada profissional precisa fechar um trabalho consciente que fez o seu melhor, e não apenas ganhou mais algumas horas-consultoria ou horas-aula, pelo menos os que se pode reputar como bons profissionais. As empresas de consultoria que os contratam precisam estar conscientes de que tal crítica se baseia na lógica da qualidade de processos, que precisam ser continuamente melhorados para serem coerentes com a própria filosofia que defendem ao venderem seus serviços aos clientes. 

No que toca à venda do produto, especificamente, não é raro acontecer uma dicotomia entre Marketing e Gestão dentro dessas empresas.  Da mesma forma que um Ministro da Saúde compreenderá mais as dificuldades da área se for um médico, fica terrivelmente complicado para um consultor chegar no cliente para executar um produto negociado por um cara de Vendas, sem nenhum conhecimento da R.H. ou Gestão de Processos.  Em alguns trabalhos que realizei dentro dessa situação delicada tive que fazer verdadeiros "malabarismos" para que o cliente se sentisse atendido em suas expectativas, simplesmente porque o nosso Gerente de Marketing, sem entender nada do negócio, disse "sim" a todas as ansiedades traduzidas nas perguntas desse cliente, sem sequer buscar saber antes se objetivos daquele tipo poderiam ser atingidos com o programa que o cliente idealizara. Ao perceber o fato e questionar meus superiores eu ouvi algumas vezes a célebre frase do "embrulha e manda" "Ora, por isso mesmo é que escolhemos você, que a gente sabe que dá conta do recado!".  E lá ia eu, buscando a forma certa de aproximar ao máximo meu trabalho do que o cliente queria, mas sem dar a perceber que o produto que o meu empregador lhe vendera não era bem o que lhe poderia proporcionar o resultado desejado.  E não há massagem no ego e tapinhas nas costas da gente que pague tal sacrifício! 

Sabe-se que consultorias menos experientes muitas vezes cometem erros normais de crescimento, dando acesso a profissionais não tão bem qualificados, que - não por culpa deles - geram descrédito que sempre respingam na instituição e comprometem o esforço dispendido por todos os demais.  As metodologias com que lidamos hoje em dia evoluiram bastante, adquiriram suas próprias identidades, desvincularam-se do modelo de suas origens com inegáveis vantagens.  Mas evoluir não significa desvencilhar-se também da lógica aceita e consagrada como a melhor a que se chegou até o presente.  A essência dos resultados lógicos, em consonància com os objetivos de quem a busca, tem que ser preservada.   

Por outro lado, existem fórmulas que permitem manter-se, enquanto for necessário, conteúdos utilizados anteriormente sem prejudicar sua transmissão com engessamentos ou rigidez excessiva e ineficaz,  já que a grande desculpa das consultorias para não alterar seus conteúdos são as implicações financeiras das mudanças em toda a literatura técnica envolvida.  Malgrado este aspecto, as pessoas que geraram tais conteúdos também não podem fazer outro melhor que produzam mais aceitação no mercado sem que lhes ofereçam todas as condições - e informações - necessárias, fruto de uma ampla discussão através da experiência PRÁTICA dos envolvidos.  Faz-se essencial contribuir para a evolução dos processos não só dos clientes mas, principalmente, daqueles que compõem a metodologia que corrige os primeiros.  A nova ordem pede maior senso crítico que se reflita no crescimento de todos, à semelhança do Iluminismo do século XVIII que determinou o fim do absolutismo francês com o foco sobre a liberdade de pensamento e direito de escolha.  Se as próprias consultorias não acordarem para isso, muito menos o enxergarão os nossos clientes.  Serão vitimas de nossa inconsciência e miopia organizacional ou, o que é pior, provas vivas de nossa incompetência.