A ÉTICA COLETIVA E O JEITINHO BRASILEIRO
Consultor de Plantão nº 36
O "jeitinho brasileiro" é conhecido internacionalmente como uma característica bem nossa, e a expressão se presta tanto a exaltar nossa versatilidade e capacidade criativa quanto para nos atribuir um tipo de esperteza que não é nada lisonjeira quando vista como traço de caráter.
Ricardo Semler, homem de negócios bem sucedido, em seu best-seller "Virando a Própria Mesa", alega que é impossível ser industrial neste país sem ser corrupto, tantos e tamanhos são os esquemas que envolvem a atividade e dentro dos quais não resta alternativa senão fazer parte deles ou perecer.
A corrupção é mera conseqüência deste padrão moral no qual somos iniciados deste a mais tenra idade. A desonestidade, o engano e a falta de caráter é algo intrínseco e altamente difundido na maioria das atividades que se desenvolve neste país. Daí porque me posiciono como um ferrenho combatente do tal "jeitinho brasileiro".
Se fizermos uma pesquisa nas ruas, é bem provável que muitos dirão que são da mesma opinião mas, na prática do dia-a-dia, as mesmas pessoas que fazem tal afirmativa cometem atos que vão desde conseguir um lugar na frente de uma fila ou calar-se ao receber um beneficio indevido da previdência, até se manter na folha de pagamento de empresa pública na qual nunca desenvolveu qualquer atividade. E todos se acham plenamente justificados na crença de que "estou pegando de volta um pouco do muito que o governo me tira!". Não resta dúvida de que este tipo de pensamento aplaca muitas consciências a partir do momento em que reconhecemos que o governo fica longe de cumprir com a sua parte. Só que isso não se pode constituir em fator decisivo para a perda generalizada de referenciais e de renúncia absoluta ao sentido de valores pelas pessoas.
Vou mais longe quando se trata de avaliar essa prática quando utilizada com conotação de malandragem. Se ainda existe a vontade de enganar, a real intenção de ser malandro, ainda há esperança de que o processo seja revertido, pois SABE-SE que se está cometendo ilícito, tem-se o conhecimento de que se está utilizando um recurso desleal ou desonesto. O mais grave – e é o que já está amplamente difundido na cultura deste país – é quando se perde a noção de que tais atitudes se constituem em ação desonesta.
Eu tenho muito mais medo do indivíduo AÉTICO do que do antiético, porque este último tem consciência plena de que está cometendo um ato ilícito, e isso faz o divisor de águas. Quando se perde a noção entre o lícito e o ilícito, como acontece no Brasil, e a população acha muito comum cometer o pequeno "delito nosso de cada dia", aí sim, tem-se o maior indicador de que a moral pública sofreu uma derrocada significativa, e não se sabe mais se isso poderá ser revertido um dia. A situação pode nunca mudar porque simplesmente ninguém acha que está fazendo nada errado. O contexto está degenerado de tal forma, com seu esquema de valores tão deturpado, que tudo passa a ser válido, desde que o final seja considerado "uma boa causa".
O país do "jeitinho" é a mais verdadeira das nossas realidades! Quem duvidar disso descobrirá quando já for muito tarde! Afinal, o negócio é levar vantagem em tudo, certo? Enquanto não nos cobrarmos, cada um de si mesmo – até que isso se torne uma prática comum – uma postura ética de tolerância zero, nada vai mudar.