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SOBRE OVELHAS E SERPENTES

Consultor de Plantão nº 37

 

Especialistas da área de consultoria são fontes vivas de conhecimento e emprestam toda a sua experiência para resolver grandes e pequenos problemas organizacionais.  Apesar disso, quanto mais poderosas as organizações desse segmento que os terceirizam, com mais freqüência se verifica o desrespeito ao seu curriculum na hora de estabelecer contratos de parceria ou de prestação de serviços.

Infelizmente, o que ocorre com muita frequencia no métier de instrutoria e consultoria é uma situação desigual entre empresas e profissionais da área, em que estes últimos sempre representam o lado mais fraco da corda, ao invés de se buscar um processo "ganha-ganha", que seja bom para embas as partes.  

Dizem os negociadores que o bom negócio é aquele em que os dois lados saem acreditando que conseguiram o melhor resultado.  Nas não é isso que se verifica na realidade das relações de mercado entre empresas que terceirizam os serviços de profissionais especializados ou até mesmo - pasmem! - entre parceiros que disputam espaço de trabalho no mercado através dessas contratações, que teoricamente deveriam trabalhar para reforçar as premissas do segmento, ajudando-se mutuamente para fortalecer a tese que unir forças ainda é a melhor forma obter respeito.  Se levarmos em conta a quantidade de entidades que não aposta nesta afirmativa, chegaremos à conclusão de que esse discurso não passa de uma falácia criada apenas para manter as pessoas da forma que interessa a quem tem mais poder:  fragilizadas, manipuláveis e disponíveis como  mão de obra talentosa e barata de que se pode lançar mão quando não se quer gastar muito. 
 
Isto acontece, por uma série de fatores, nas relações onde existem posições diametralmente distintas entre pessoas físicas e pessoas jurídicas:  enquanto estas últimas estão conscientes de que essa é a melhor forma de conseguir o melhor pagando menos, as primeiras estão ingenuamente acreditando que são procuradas por reconhecimento do seu talento.  Acham que "venceram a concorrência" em relação aos preteridos, e por conta disse sentem-se valorizadas.  E é isso justamente o que as empresas querem que seus contratados continuem pensando, pois dessa forma continuarão cumprindo o seu papel de "empregadores magnânimos" e poderão sempre ditar as regras do jogo.  Um jogo em que ganham até com uma trinca de dois de paus, já que você - enquanto pessoa física - jamais será tratado como se tivese uma trinca de ases nas mãos. 
 
Agora pergunto:  se você encontrasse nas ruas alguém lhe oferecendo um relógio de ouro por uma bagatela, o que acha que faria?  Estou apostando que provavelmente adotaria uma destas posturas:
a) ficaria desconfiado de que o ouro era falso e se desviava do vendedor para não comprar gato por lebre e se dar mal;
b) como entende de jóias, sacava o dinheiro rapidamente e se afastava com o relógio antes que ele se arrependesse e desistisse da venda barata; ou
c) pagava o precinho do homem e dava uma gorgetinha a mais dizendo dizendo que você comprará outros quando ele tiver prá vender.
 
E aí, acertei?  Uma dessas alternativas seria a sua resposta, não é mesmo?  Pois se você é um desses profissionais que aceita de imediato tais convites, coloque-se no lugar da jóia e veja a empresa que o contrata como o comprador do relógio.  Pois é exatamente uma dessas três posturas que a contratante irá assumir quando você se oferecer como uma jóia em liquidação:  vai olhar para você com a desconfiança de quem encontra laranja madura na beira da estrada - que só pode estar bichada ou com marimbondo no pé;  vai sugar tudo o que puder da oportunidade que você lhe oferece naquele momento, e depois nem mais vai se lembrar que você existe;  ou vai acenar com uma promessa de novos trabalhos, e colocá-lo no aprisco dele junto com uma série de outras ovelhas, onde de vez em quando apanha uma, tosquia, vende caro a lã, lhe dá um feixe de grama como recompensa e manda que você retorne ao redil para esperar a próximo comprador de lã que lhes encham os bolsos.  
 
Desculpe se parece chocante, mas para o dono das ovelhas isso é apenas uma rotina de trabalho. Ele não está - nem pode - ficar preocupado com o aspecto moral da coisa, pois senão ele não ganha dinheiro, dentro dos padrôes que defende. 
 
Desculpe de novo se vou um pouquinho mais longevocê deve estar deixando "cair a ficha" de que o seu contratante é um tremendo do salafrário, explorando assim o seu talento e lhe pagando um miséria, não é mesmo?  NÃO!  Não é verdade!  Ele é apenas um bom negociador!  Não necessariamente dentro dos critérios mais éticos, mas ainda assim é um bom negociador.  Pelo menos para os bolsos dele e da empresa que o paga para fazer dinheiro!  
 
Mas então, quem é o verdadeiro culpado de tudo isso?  Acho que nem preciso mais dizer, pois você já desconfiou!  Claro que o grande culpado de tudo isso é VOCÊ!   Pois cada ovelha acha o aprisco que merece.  Enquanto você aceitar o preço que já chega fechado, o contrato que você só assina e não discute, as baixas condições de trabalho que lhe são impingidas, e todo o sacrifício que você tem que fazer para suprir o apoio que não recebe, tudo vai continuar exatamente como está:  você sendo tosquiado e alguém ganhando dinheiro com a sua lã. 
 
Já me deparei com uma situação de injusta imposição perante um contratante de serviços que impunha uma situação de submissão absoluta a alguns de meus colegas, e o grupo se organizou para colocar em votação a rejeição das condições impostas e a suspensão do contrato com a empresa contratante.  A reação foi um alarido geral da maior parte do grupo, que queria abrir espaço junto a esse cliente, quase em pânico com a idéia de se criar animosidade com a contratante e serem alijados de futuros trabalhos.  Se a maioria se expressa dessa forma, não resta outra alterativa aos mais conscientes que acatar, e substituir  a valorização da atividade pelo suposto "apoio" a uma situação imediata que espelhava nitidamente a insegurança dos que têm medo de lutar pelo que acreditam. 
 
Vale então lembrar aos profissionais que não se empenham na valorização dos seus serviços que, neste mercado de competição selvagem que hoje vivemos, acreditar que apenas fixar-se na ética e eficiência é garantia certa de reconhecimento vai além de romantismo e ingenuidade:  chega a ser uma postura primária e pouco inteligente.  Mas daí a aceitar tudo o que nos for imposto em nome da sobrevivência nos faz passar para o extremo oposto:  estabelecer o limite máximo de ganho nivelado por baixo e para sempre!   Seus contratantes vão ter certeza de que terão sua lã no momento em que precisem, e com a preocupação única de suprir as necessidades deles, e nunca as suas. 
 
Sua conscientização e auto-confiança é a principal  condição para que você possa falar de igual para igual!  É importante que cada profissional se imponha como um PARCEIRO do mercado, não como empregado deste, e muito menos escravizado por ele.  Se sozinho sentir-se impotente para conseguí-lo, associe-se ou constitua juridicamente o seu negócio.  A mediação de ações negociadas entre pessoas jurídicas são cosubstanciadas em aspectos legais que lhe atribuem mais sustentação, maior margem de negociação e todas as garantias que a legislação lhe faculta, enquanto que de empresa para pessoa física, vale o que você aceita, e ponto final. 
 
Em certa ocasião eu cometi um erro desse tipo!  Em meio a um projeto nacional de grandes proporções em que eu recebia como pessoa física, de repente meu contratante me comunica que descobrira estar sendo "onerado" em 20% a mais do que o faria se eu estivesse prestando o serviço através de pessoa jurísica.  Busquei todas as formas possíveis de tentar mostrar as vantagens de preservar a relação nos mesmos moldes e eles não cederam.   Com o trabalho pela metade, a solução foi "emprestar" notas fiscais de um colega que tinha micro-empresa, que se colocou de boa vontade para resolver meu problema. 
 
Algum tempo depois descobri que naquele ano simplesmente não existi como profissional: meu nome não apareceu em nenhum papel, recolhi todos os impostos sobre meus ganhos para o governo (em nome da empresa de meu colega), paguei o tal adicional de INSS que não entrou para minha aposentadoria, e meu imposto de renda, ao ser declarado,  não acusava nada do tanto que paguei para obter o que teria direito como restituição (que não tive, é claro!).   Se colocado na ponta do lápis,  tivesse eu uma alternativa legal, mesmo tirando de meu bolso - conforme condição deles - os tais 20% excedentes, teria sido muito mais vantajoso, até financeiramente falando:  O que joguei fora em tributos e impostos, que jamais me retornarão como benefício, com certeza estão bem acima do ônus incidente sobre cada nota faturada.  Isso sem considerar o tempo de trabalho que não conta para efeito de previdência, e tantos outros beneficios das relações legalizadas.
 
A expressão que cabe como fechamento para tudo isto que estou dizendo é BOM SENSO!  Ninguém está pregando que nos comportemos como "kamikases", só trabalhando em condições de total compatibilidade com nossos valores morais e profissionais.  Mas entre essa posição e a de submissão total a tudo o que nos apresentarem em troca de um trabalho, tem um longo caminho de negociações a percorrer que pode encontrar um ponto comum que não se mostre indigno para nenhuma das partes.  Se todos se apresentarem como cordeirinhos, cordeirinhos seremos sempre, pois nos tornamos cúmplices dessa situação de exploração pura e simples de mão de obra competente e barata!   Só não pode propor condições melhores quem não possui bagagem para garantir o resultado que vende, o que não é o caso de muitos desses profissionais, reconhecidamente de nível elevado e preparados para o mercado exigente que temos hoje.

Quem me acompanha há algum tempo sabe que não sou o tipo de pessoa que costuma recitar versículos bíblicos para sustentar o que acredita, mas existem lá algumas citações que se prestam a grandes reflexões.  Uma passagem de que gosto muito fala do Cristo pregando o seguinte:  "Sê manso como as ovelhas, e astuto como as serpentes".   Por que foi que o Cristo teria dito isso?   No mínimo para que entendêssemos que no mundo existem ovelhas e serpentes, e que precisamos conhecer suas naturezas e nos comportar como ovelhas quando na segurança do aprisco, mas como serpentes em seu covil para não sermos atacados e sucumbir como vítimas indefesas de seus venenos.   

Com a humildade de alguém que tem muito a aprender com esse Mestre dos Mestres, eu me atrevo a subtrair uma letrinha nas preposições da frase bíblica e complementar:  "Sê manso COM as ovelhas, e astuto COM as serpentes", pois que a sabedoria nos mostra que não podemos nos comportar da mesma forma com os dois extremos.  Assim, as ovelhas sempre merecerão o que de melhor podemos oferecer para não agredir sua sensibilidade e doçura, e as serpentes deverão sempre nos encontrar preparados e à altura do seu potencial destrutivo para nos defendermos de suas artimanhas e asperezas, de forma a não nos tormarmos vítimas inocentes e indefesas das armadilhas que nos preparam.  A união desses dois predicados - a serenidade e a agudeza de percepção – é que nivela a todos à sombra da justiça nas relações, nos tornando aptos a respeitar e sermos respeitados, posto que esse respeito mútuo é necessário para que as forças estejam bem distribuidas e o equilíbrio prevaleça.  

O dia que receberermos o que nos sabemos merecedores com certeza não precisaremos ser ovelhas em ninho de serpentes,  e poderemos esperar tratamento digno por parte de todos com quem lidamos ou negociamos, sendo alvos do mesmo respeito que nossos contratantes - e eles estão certos - fazem questão de receber de nós.