Infelizmente,
o que ocorre com muita frequencia no métier de
instrutoria e consultoria é uma situação desigual entre empresas e
profissionais da área, em que estes últimos sempre representam o
lado mais fraco da corda, ao invés de se buscar um processo
"ganha-ganha", que seja bom para embas as partes.
Dizem os negociadores que o bom negócio
é aquele em que os dois lados saem acreditando que conseguiram o
melhor resultado. Nas não é isso que se verifica na realidade das relações
de mercado entre empresas que terceirizam os serviços de profissionais
especializados ou até mesmo - pasmem! - entre parceiros que disputam espaço
de trabalho no mercado através dessas contratações, que teoricamente
deveriam trabalhar para reforçar as premissas do segmento, ajudando-se
mutuamente para fortalecer a tese que unir forças ainda é a melhor forma
obter respeito. Se levarmos em conta a quantidade de entidades que não aposta
nesta afirmativa, chegaremos à conclusão de que esse discurso não
passa de uma falácia criada apenas para manter as pessoas da forma que
interessa a quem tem mais poder: fragilizadas,
manipuláveis e disponíveis como mão de obra talentosa e barata
de que se pode lançar mão quando não se quer gastar muito.
Isto acontece, por uma série de fatores, nas
relações onde existem posições diametralmente distintas entre
pessoas físicas e pessoas jurídicas: enquanto estas últimas estão
conscientes de que essa é a melhor forma de conseguir o melhor pagando menos,
as primeiras estão ingenuamente acreditando que são procuradas por
reconhecimento do seu talento. Acham que "venceram a concorrência"
em relação aos preteridos, e por conta disse sentem-se valorizadas. E
é isso justamente o que as empresas querem que seus contratados continuem
pensando, pois dessa forma continuarão cumprindo o seu papel de
"empregadores magnânimos" e poderão sempre ditar as regras do
jogo. Um jogo em que ganham até com uma trinca de dois de paus, já que
você - enquanto pessoa física - jamais será tratado como se tivese uma
trinca de ases nas mãos.
Agora pergunto: se você encontrasse
nas ruas alguém lhe oferecendo um relógio de ouro por uma bagatela, o que
acha que faria? Estou apostando que provavelmente adotaria uma
destas posturas:
a) ficaria desconfiado de que o ouro era
falso e se desviava do vendedor para não comprar gato por
lebre e se dar mal;
b) como entende de jóias, sacava o
dinheiro rapidamente e se afastava com o relógio antes que ele se
arrependesse e desistisse da venda barata; ou
c) pagava o precinho do homem e dava uma
gorgetinha a mais dizendo dizendo que você comprará outros quando ele
tiver prá vender.
E aí, acertei? Uma dessas
alternativas seria a sua resposta, não é mesmo? Pois se você é um
desses profissionais que aceita de imediato tais convites, coloque-se no lugar
da jóia e veja a empresa que o contrata como o comprador do relógio.
Pois é exatamente uma dessas três posturas que a contratante irá assumir
quando você se oferecer como uma jóia em liquidação: vai olhar para
você com a desconfiança de quem encontra laranja madura na beira da estrada
- que só pode estar bichada ou com marimbondo no pé; vai sugar tudo o
que puder da oportunidade que você lhe oferece naquele momento, e depois nem
mais vai se lembrar que você existe; ou vai acenar com uma promessa de
novos trabalhos, e colocá-lo no aprisco dele junto com uma série de outras
ovelhas, onde de vez em quando apanha uma, tosquia, vende caro a lã, lhe dá
um feixe de grama como recompensa e manda que você retorne ao redil
para esperar a próximo comprador de lã que lhes encham os bolsos.
Desculpe se parece chocante, mas para o
dono das ovelhas isso é apenas uma rotina de trabalho. Ele não está - nem
pode - ficar preocupado com o aspecto moral da coisa, pois senão ele não
ganha dinheiro, dentro dos padrôes que defende.
Desculpe de novo se vou um pouquinho mais
longe: você deve estar deixando "cair a
ficha" de que o seu contratante é um tremendo do salafrário, explorando
assim o seu talento e lhe pagando um miséria, não é mesmo? NÃO!
Não é verdade! Ele é apenas um bom negociador!
Não necessariamente dentro dos critérios mais éticos, mas ainda assim é um
bom negociador. Pelo menos para os bolsos dele e da empresa que o paga
para fazer dinheiro!
Mas então, quem é o verdadeiro culpado
de tudo isso? Acho que nem preciso mais dizer, pois você já
desconfiou! Claro que o grande culpado de tudo isso é VOCÊ!
Pois cada ovelha acha o aprisco que merece. Enquanto você aceitar
o preço que já chega fechado, o contrato que você só assina e não
discute, as baixas condições de trabalho que lhe são impingidas, e todo o
sacrifício que você tem que fazer para suprir o apoio que não recebe, tudo
vai continuar exatamente como está: você sendo tosquiado e alguém
ganhando dinheiro com a sua lã.
Já me deparei com uma situação de
injusta imposição perante um contratante de serviços que impunha uma
situação de submissão absoluta a alguns de meus colegas, e o grupo se
organizou para colocar em votação a rejeição das condições impostas
e a suspensão do contrato com a empresa contratante. A reação
foi um alarido geral da maior parte do grupo, que queria abrir espaço
junto a esse cliente, quase em pânico com a idéia de se criar animosidade
com a contratante e serem alijados de futuros trabalhos. Se a
maioria se expressa dessa forma, não resta outra alterativa aos mais
conscientes que acatar, e substituir a valorização da atividade pelo suposto "apoio"
a uma situação imediata que espelhava nitidamente a insegurança dos
que têm medo de lutar pelo que acreditam.
Vale então lembrar aos profissionais que
não se empenham na valorização dos seus serviços que, neste mercado de
competição selvagem que hoje vivemos, acreditar que apenas
fixar-se na ética e eficiência é garantia certa de
reconhecimento vai além de romantismo e ingenuidade: chega a ser uma
postura primária e pouco inteligente. Mas daí a aceitar tudo o que nos
for imposto em nome da sobrevivência nos faz passar para o extremo
oposto: estabelecer o limite máximo de ganho nivelado por baixo e
para sempre! Seus contratantes vão ter certeza de que terão sua
lã no momento em que precisem, e com a preocupação única de suprir as
necessidades deles, e nunca as suas.
Sua conscientização e auto-confiança
é a principal condição para que você possa falar de igual para
igual! É importante que cada profissional se imponha como um
PARCEIRO do mercado, não como empregado deste, e muito menos escravizado por
ele. Se sozinho sentir-se impotente para conseguí-lo,
associe-se ou constitua juridicamente o seu negócio. A mediação de ações
negociadas entre pessoas jurídicas são cosubstanciadas em aspectos legais
que lhe atribuem mais sustentação, maior margem de negociação e todas as
garantias que a legislação lhe faculta, enquanto que de empresa para
pessoa física, vale o que você aceita, e ponto final.
Em certa ocasião eu cometi um erro
desse tipo! Em meio a um projeto nacional de grandes proporções em
que eu recebia como pessoa física, de repente meu contratante me comunica que
descobrira estar sendo "onerado" em 20% a mais do que o faria se eu
estivesse prestando o serviço através de pessoa jurísica. Busquei
todas as formas possíveis de tentar mostrar as vantagens de preservar a relação
nos mesmos moldes e eles não cederam. Com o trabalho
pela metade, a solução foi "emprestar" notas fiscais de um colega
que tinha micro-empresa, que se colocou de boa vontade para resolver meu
problema.
Algum tempo depois descobri que naquele
ano simplesmente não existi como profissional: meu nome não apareceu em
nenhum papel, recolhi todos os impostos sobre meus ganhos para
o governo (em nome da empresa de meu colega), paguei o tal adicional de INSS
que não entrou para minha aposentadoria, e meu imposto de renda, ao ser
declarado, não acusava nada do tanto que paguei para obter o
que teria direito como restituição (que não tive, é claro!).
Se colocado na ponta do lápis, tivesse eu uma alternativa legal, mesmo
tirando de meu bolso - conforme condição deles - os tais 20%
excedentes, teria sido muito mais vantajoso, até financeiramente falando:
O que joguei fora em tributos e impostos, que jamais me retornarão como benefício,
com certeza estão bem acima do ônus incidente sobre cada nota faturada.
Isso sem considerar o tempo de trabalho que não conta para efeito de
previdência, e tantos outros beneficios das relações legalizadas.
A expressão que cabe como
fechamento para tudo isto que estou dizendo é BOM SENSO! Ninguém está
pregando que nos comportemos como "kamikases", só trabalhando
em condições de total compatibilidade com nossos valores morais e
profissionais. Mas entre essa posição e a de submissão total a tudo o
que nos apresentarem em troca de um trabalho, tem um longo caminho de negociações
a percorrer que pode encontrar um ponto comum que não se mostre indigno
para nenhuma das partes. Se todos se apresentarem como
cordeirinhos, cordeirinhos seremos sempre, pois nos tornamos cúmplices dessa
situação de exploração pura e simples de mão de obra competente e barata!
Só não pode propor condições melhores quem não possui bagagem para
garantir o resultado que vende, o que não é o caso de muitos desses
profissionais, reconhecidamente de nível elevado e preparados para o mercado
exigente que temos hoje.
O dia que receberermos o que nos sabemos merecedores com
certeza não precisaremos ser ovelhas em ninho de serpentes,
e poderemos esperar tratamento digno por parte de todos com quem lidamos
ou negociamos, sendo alvos do mesmo respeito que nossos contratantes - e eles
estão certos - fazem questão de receber de nós.