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MEU DIA DE 54 HORAS

 

Consultor de Plantão nº 38

 

Se considerado cronológicamente, o dia tem 24 horas e, como é sabido, os atributos que ele apresenta -  limitado, inelástico, perecível, irrecuperável e irreversível - teoricamente não podem sofrer alteração pelo homem.  Apesar disso descobri a duras penas que algumas idéias criativas podem ampliar em mais de 30 horas o aproveitamento do nosso tempo útil.  Um verdadeiro nirvana para os angustiados e a glória para os workaholics.

 

 

Algum tempo depois de ingressar no time dos descasados descobri que cuidar de vida pessoal e profissional sozinho pode ser um componente líquido e certo para um infarto ou, no mínimo, para uma parada brusca e obrigatória por conta de stress.  E como profissional liberal, que depende do "pão nosso de cada dia" para sobreviver, eu estava vendo a hora em que teria que abrir mão de meu espaço e de minha independência para voltar para a casa de meus pais por conta de uma crescente e assustadora incapacidade para gerenciar minha própria vida.   Minha atividade de consultoria me mantinha pelo menos dois terços dos dias úteis viajando pelos mais diversos cantos do país, e a cada retorno eu me deparava com um mundo de tarefas para cumprir, e um não menor número de decisões para tomar que muitas vezes me levavam à beira do desespero e me forçavam a questionar se continuar dono do meu nariz valia tanto sacrifício. 
 
Eu sempre fora tido como uma dessas pessoas super-organizadas. Um dos meus amigos, que me conheceu quando eu ainda estava casado, uma vez me disse que eu era a pessoa que ele conhecia que mais tinha controle sobre a própria vida.  Nesse dia eu fui despertado para o fato de que, na verdade, eu conseguira construir minha vida da forma como muita gente tentava e não conseguia:  minha mulher - que trabalhava com moda - tinha seu atelier próximo à nossa casa; tínhamos uma diarista para as tarefas domésticas,  e sempre sobrava tempo pra sairmos para dançar ou para um cinema nos fins de semana.  Em fevereiro, invariávelmente, viajámos em férias, aproveitando a baixa estação para nossas respectivas atividades.   Meu home-office sempre foi a parte mais sagrada da casa em se tratando de organização:  meus livros todos catalogados, minha escrivaninha de trabalho com computador, CD's e disquetes à mão; periféricos e equipamentos de suporte como impressora, scanner, fax, vídeo, som, tudo acessível a um simples movimento da cadeira giratória ou através do controle remoto.  Alí era o meu império onde eu reinava absoluto, e onde a faxineira era orientada para só limpar quando eu estivesse presente. Até nosso cãozinho percebeu que meu studio de trabalho era território proibido para ele, pois ao ver sua bola entrando porta adentro ficava latindo até que eu a devolvesse, mas jamais ultrapassava o portal do meu escritório.   
 
Agora, porém, era tudo diferente:  ao chegar de cada viagem de trabalho eu tinha que cuidar de todo o resto sozinho - da casa, da dispensa, da faxina, das roupas, dos contatos profissionais, dos com a família, com os amigos, e ainda arranjar tempo para desenvolver novos projetos e administrar os de rotina.  Meus arquivos antes eram tão organizados que eu podia administrá-los de qualquer lugar do país onde me encontrasse, bastando solicitar por telefone à minha mulher que localizasse o documento ou o livro pelo índice do computador e o transmitisse para mim por fax ou qualquer outro meio disponível.  Agora, a cada viagem mal dava tempo para desfazer as malas ao chegar.  As roupas pareciam muito mais do que eu conseguia colocar prá lavar e passar, e destinei seis sacolas delas para doação prá me poupar desse trabalho.  Acabei com enfeiteis sobre os móveis e tudo o que não fosse realmene útil para o apartamento ficar fácil de cuidar. Prá completar, a faxineira desistiu de mim porque minhas datas de retorno nunca eram regulares.  O dentista me atendia fora do horário nos intervalos entre uma viagem e outra, e ainda tive de abrir mão do meu cachorro prá ele não morrer de solidão ou de inanição durante minhas constantes ausências. 
 
Eu comecei a me preocupar com minha permanente sensação de esgotamento e quando me percebi emagrecendo a olhos vistos pela angústia de ver roupas sujas, poeira da casa, comida estragada na geladeira, trabalhos, etc., tudo se acumulando ao final de cada viagem, por eu não encontrar tempo para tê-los lavados, limpos, guardados e organizados como no tempo em que era casado.  Comecei a perceber que a coisa estava ficando insustentável quando minha mãe me ligou um dia no meio do meu desespero para tentar colocar ordem nas coisas, e de repente um choro convulsivo me impediu de falar com ela ao telefone. Menos de 20 minutos depois meu apartamento estava abarrotado de irmãos, cunhados e sobrinhas que vieram correndo atendendo ao pedido de socorro de minha mãe, tendo ela à frente, para me oferecerem ajuda.  Resgatando meu auto-controle até para tranquilizar a todos e preservar meu espaço, prometi que iria tomar medidas drásticas para impedir o desfecho físico e emocional que já se anunciava. 
 
Disposto a retomar as minhas rédeas, concluí que não estava trazendo para o meu cotitiano a experiência e o conhecimento que acumulara ao longo de minha carreira profissional:  eu era especialista em planejamento estratégico, ensinava 5S, organização e métodos, aplicava análise de processos, dedicava-me a fazer diagnósticos de realidade e projetar planos de ação para resolver problemas identificados nas empresas, e nada disso estava sendo usado no gerenciamento de minha própria vida!  Em casa de ferreiro, espeto de pau!
 
Achei que era hora de atacar de frente a causa maior de todos os meus problemas:  o gerenciamento do meu tempo!  Comecei a prestrar atenção nas minhas prioridades, separando tudo o que eu tinha que fazer em coisas essenciais e secundárias, e colocando-as em ordem de importância e prioridade.  Comecei a prestar atenção na diferença entre fazer bem alguma coisa e usar de preciosismo, ou seja, perder tempo com pseudo-melhorias que não têm qualquer utilidade prática.  Comecei logo a perceber uma significativa diferença e a retomar o prazer de me dedicar a coisas que me gratificavam.  Comecei a perceber como desgastes físicos e mentais se fazem infinitamente menores quando se reconhece  o grau de importância do que se está fazendo. 
 
E assim, pouco a pouco, as coisas foram voltando aos eixos:  a antiga ansiedade por fazer tudo foi sendo substituida pela possibilidade real de execução com intervalos regulares para relaxamento e lazer sem culpa.  A obrigação inicial foi gradativamente cedendo lugar ao crescente prazer, e este aliviava a sensação de cansaço mental que se refletia no físico por períodos cada vez mais longos.  Fui descobrindo uma série de recursos e "artimanhas" para transformar em prazer coisas antes consideradas monótonas e desgastantes, como atividades domésticas e trabalhos urgentes mas não tão aprazíveis.   No que toca ao psicológico, busquei direcionar aquelas prioridades "chatas" não para o lado da obrigação que representavam, mas para  o desafio de concretizá-las da forma mais simples e mais agradável, eliminando os preciosismos viciosos.  Visualizar o benefício a ser extraído  com elas passou a ser o lado prazeroso da atividade, fixando-me no resultado buscado e vendo a atividade em si como simples meio para obtê-lo, o que acaba minimizando o peso desta última da mesma forma como o atleta quase não percebe o desgaste da disputa quando se concentra na vitória!
 
Em termos práticos, descobri uma maneira divertida e gostosa de ir ampliando gradativamente a minha capacidade de aproveitamento útil do meu tempo ao longo de um dia dividido entre várias tarefas de cunho profissional ou doméstico.  Aí incrivelmente se descobre como que coisas -  antes vistas sob a ótica de problemas, obstáculos ou limitações - podem ser tranformadas em aliadas e revertidas totalmente a seu favor.  Se antes se constituiam em motivos para stress ou desgaste físico, agora se caracterizam como oportunidades para se fazer coisas a que você não se dava oportunidade até aqui.  Uma dessas maneiras foi uma espécie de "jogo" que criei para mim mesmo, que chamei de "Desafio da Trípla Ação".  A idéia surgiu da forma mais inusitada que se pode imaginar:  minha máquina de lavar roupa apresentou um defeito no termostato que a faz parar quando começa a sacudir muito.  Eu ficava iritadíssimo de ter que ficar debruçado sobre ela até o final do enxague e da centrifugação que levava mais de 40 minutos, para que não pulasse, pensando no tempo perdido ali enquanto meu trabalho permanecia parado no computador.  Bati os olhos então na caixa de sabão em pó ao lado, que anunciava uma limpeza de tripla ação - rápida, eficiente e branqueadora.  Atravessou-me a cabeça uma frase do Erich Fromm:  "Os outros olham para o que existe e se perguntam: 'Por que?'.  Eu olho para o que não existe e me pergunto: 'Por que não?' " .  
 
Do pensamento para a ação, resolvi juntar Fromm ao sabão em pó alí mesmo.  Desliguei a máquina no ponto onde estava, programei o "Siga-me" do telefone fixo para tocar no celular e, munido do aparelho e de um livro técnico que precisava estudar, sentei-me sobre a máquina e a liguei novamente.  Ela sacudia de forma controlada sob meu peso e fazia minhas pernas vibrarem.  Descobri que era uma massageador vibratório excelente!  Os 40 minutos seguintes eu permaneci sentado sobre ela, sentindo as pernas sendo relaxadas por estimulante massagem, enquanto atendia ou fazia ligações, e ainda estudava nos intervalos entre uma ligação e outra!   Em vez de perguntar "Por que tenho que perder todo este tempo?", apliquei o "Por que não aproveitar bem esse tempo aqui?", e curti minha primeira Tripla Ação, fazendo massagem, lendo e falando ao telefone tudo alí mesmo!   Achei um barato a experiência e decidi estender a fórmula para todas as demais atividades domésticas e profissionais durante minha permanência em casa. 
 
A característica de desafio lúdico da experiência acabou me contaminando de forma permanente e tornando cada vez mais divertido descobrir formas de agrupar três ou mais atividades que pudessem ser desenvolvidas simultaneamente, ampliando em muitas vezes o tempo necessário para executar cada uma delas em separado, e as idéias que foram surgindo se mostravam cada vez mais engenhosas.   Vejam algumas delas que passaram a fazer parte da minha rotina diária:  enquanto espero a água ou o óleo da panela esquentar para preparar um alimento, encho as garrafas de água da geladeira e preparo a lista de compras do supermercado sem sair da cozinha;  enquanto os emails estão sendo baixados da internet aproveito para arquivar as pastas espalhadas na escrivaninha ou localizar o CD-Rom que tem o arquivo que preciso reproduzir;  o abdominal obrigatório para eliminar a indesejável barriguinha passou a ser o momento de curtir aquela seleção gostosa de Mozart, e ainda de refrescar a memória para as prioridades do dia que começa; a atividade de retirar o pó dos móveis passou a ser conjugada com o levantamento de aparelhos defeituosos ou objetos a serem substituidos, e aproveitados ainda para variar a arrumação que já está incomodando.  
 
Na cozinha, em vez de me ocupar só da comida e lavar tudo após o almoço, eu vou lavando tudo que sujei enquanto cada panela entra no fogo, de forma que quando tudo acaba só resta um prato e a última panela para ser lavada. E, acredite, até o momento de "sentar no trono" passou de uma interrupção forçada no trabalho para um momento de planejar a próxima etapa numa prancheta deixada próxima, de fazer uma ligação necessária no aparelho instalado na parede ao lado, e ainda cortar as unhas sem necessidade de reservar um tempo específico para coisas tão simples, mas indispensáveis.   Tendo coisas para fazer na rua, idas ao barbeiro ou em filas de banco, por exemplo, passaram a ser um momento para colocar a leitura em dia, fazer listas de compras para aproveitar a saída ou conferir extratos bancários e contas a pagar.   No caso de pagamentos que não posso fazer por telefone ou internet, faço o roteiro antes de sair de casa de modo a não precisar passar por um mesmo local mais de uma vez.  Nos estabelecimentos que fornecem senha com horário marcado para uma ou duas horas depois, garanto a minha vez com ela e saio para outros compromissos no intervalo, retornando próximo à hora de ser atendido, tornando útil o tempo que seria de espera.
 
Fui percebendo quanto tempo era desperdiçado com esperas por coisas que podiam ser feitas simultaneamente em vez de executadas cada qual a seu tempo em seqüência linear, e quantas delas nos colocam em imobilidade desnecessária, já que o tempo que requerem para serem concluidas é completamente morto, permitindo desenvolver-se atividades em paralelo cujo tempo de dedicação é o mesmo que o da espera entre elas.  O segredo é apenas eliminar as esperas e transformá-las em tempo útil. Não implica em correr mais, pois senão se tornaria mais uma neurose, mas fazer tudo em rítmo normal, porém de forma inteligente.
 
Ao fim de um período colhendo ótimos resultados - em que percebi quantas horas eu literalmente jogava fora antes de utilizar o jogo da Tripla Ação - quis fazer um balanço do que isso havia representado em relação ao aproveitamento do meu tempo global de cada mês.  Se considerado que durmo em média não mais que 6 horas por noite, sobram 18 para fazer tudo o que preciso.  Dessas dezoito horas, 16 eu dedico às atividades pelo regime de Tripla Ação, sejam pessoais ou profissionais, que então transformo em 48 (coisas que, da forma como fazia antes, eu precisaria de 3 dias inteiros). Tudo isso sem stress, sem correrias, de forma planejada quase no automático, e com muito menos desgaste físico e mental.  Dá até para estabelecer um expediente de trabalho como se estivesse cumprindo horário dentro de uma empresa, mesmo trabalhando em casa.   As duas restantes eu reservo para puro lazer, fazer somente aquilo que gosto ou, simplesmente, descansar.  Se quiser ocupá-las em um determinado dia, elas podem representar o equivalente a mais 6 horas de tarefas agrupadas.
 
Faça um cálculo:  se você dormir as mesmas 6 horas que eu durmo por noite, e trabalhar de forma linear, você tem 540 horas úteis por mês para fazer o que precisa (30 dias de 18 horas).  Eu terei o equivalente a 3 vezes isso: 90 dias ou 1620 horas -  que representam 60 dias a mais de 18 horas ininterruptas em cada mês, para todas as minhas atividades. É como ganhar mais 720 dias inteiramente úteis por ano, além dos 261 de hoje, para você dedicar ao que precisa ser feito, sem prejuízo das suas 6 horas diárias de sono, apenas eliminando os intervalos de espera entre cada uma. Dá prá acreditar quanta coisa você poderia realizar em todo o tempo que agora lhe falta?  E com uma vantagem extra:  o trabalho acaba saindo muito melhor e a jornada pode ser a mesma... Mas a cabeça, quanta diferença!