SISTEMATIZAÇÃO DE PROCESSOS EM EMPRESAS FAMILIARES
Consultor de Plantão nº 41
Muitas empresas conduzidas por pessoas da família ainda acreditam que, por se conhecerem de longa data uns aos outros, não precisam estabelecer certas regras comuns às empresas de gerenciamento profissional. Mas é aí que dão o primeiro passo para toda uma seqüência de erros que assume característica de um complicada teia, acabando por transformá-los em seguras vítimas de seu próprio crescimento.
Se é que existe um problema que afeta mais de 90% das empresas familiares é a falta de sistematização de seus processos internos, o que, via de regra, é também uma das principais causas para que um significativo número delas acabe por se desestruturar antes do tempo. Infelizmente a estatística de pequenas empresas que fecham as portas no primeiro ano de vida ainda é bastante elevado no Brasil, mas o que tais estatísticas não mostram com clareza é o real motivo pelo qual isso acontece.
Via de regra apontam para razões tais como inexperiência de mercado e negligência nos aspectos que dizem respeito à satisfação do cliente. Ainda não vi nenhuma pesquisa que abordasse a informalidade do tratamento familiar entre seus membros como causa primeira da falência prematura quando, na verdade, esta é a causa raiz de todos os demais problemas que irão afetá-la no decorrer de sua tentativa de se firmar e ocupar seu espaço no mercado. O excesso de informalidade - que deveria facilitar a movimentação das pessoas e agilizar os processos internos - acaba por criar uma estrutura instável em que se verifca a conhecida situação de "muito cacique prá pouco índio", ou a autoridade se concentrando sobre alguém que não consegue atuar sem desautorizar todos os demais, virando um "saco de gato" que ninguém entende. Dessa forma a instabilidade vai se instalando e criando tal clima de insegurança que ao final de algum tempo atingirá proporções dificilmente reversíveis.
O fato é que o termo "inexperiência" tem seu foco mais comum colocado sobre as relações externas, quando é das internas que depende toda a segurança e consolidação das ações que serão levadas para fora de seus muros. Já começa com a dificuldade de desenvolver-se a visão de "cliente interno". A preocupação com o cliente externo é algo que se desenvolve "no automático" até porque o novo empresário logo percebe que a concorrência é violenta, e que se ele não tiver essa preocupação logo no início não terá combustível para tocar seu negócio. Mas enfocar sua equipe como cliente e estender a ela os mesmos cuidados que busca oferecer ao cliente externo é coisa que poucos assimilam e acabam fechando antes de absorver sequer o básico do que poderiam ter lançado mão para evitar o triste momento de "entregar os pontos".
Ouvi certa vez o funcionário de uma pequena empresa dizer que os donos "pareciam crianças, que só pensam nelas mesmas". Nem ele mesmo tinha idéia da profundidade de sua afirmativa, pois é exatamente essa a figura mais adequada para estabelecer um parâmetro em relação à forma como reciocionam os donos da grande maioria das empresas familiares. Como crianças em plena fase egocêntrica, eles só consequem ver o que está à volta, mas nunca enxergando o próprio umbigo, onde está a raiz dos seus problemas. Por esse motivo agem como se a estrutura de sustentação do negócio fosse o material, e não o humano, como quando o diretor de colégio se concentra mais na escola para impressionar os pais do que nos alunos.
Tudo começa numa "cegueira gerencial" onde os donos agem como se eles e a organização fossem uma coisa só, e eles - é claro - o único órgão pensante. Ter os donos como "cérebros" desse organismo-empresa é sempre positivo, desde que eles não se esqueçam de que as condições saudáveis dos demais órgãos é que mantêm o cérebro vivo. Mas, acreditem: eles se esquecem sim, e com muito mais freqüência do que se imagina.
Empresas funcionam como organismos vivos e o são, realmente. Só que cada um de seus órgãos tem sua "lógica" de funcionamento, possui características de sistema com atividades interdependentes mas, ao mesmo tempo, próprias, que precisam ser respeitadas para trabalhar a contento e alimentar o cérebro com tudo o que ele precisa para garantir o funcionamento do todo.
A diferença entre o sistema empresarial e o físico é que, neste último, todos os órgãos já nascem programados para funcionar integrados ao conjunto, enquanto que na empresa eles precisam ser preparados para fazê-lo. Em termos práticos, os donos precisam sistematizar todo o funcionamento da organização, ou seja, introduzir planejamento desde a concepção do negócio até as ações mais rotineiras do seu dia à dia. Com planejamento estabelece-se metodologia, que é a base de todo o funcionamento da estrutura. Enquanto o planejamento indica o caminho, a metodologia garante o seu cumprimento, não podendo, portanto, estarem desassociados.
A adoção de planejamento é inversamente proporcional à concentração de poder. Quando aquele não acontece, o poder de comando aumenta sem controle porque tem que suprir toda as deficiências dos demais, que são vítimas diretas de quem o centraliza. Concomitantemente, a centrarlização do poder também acaba vitimando seus praticantes por autofagia: quando deixam de preparar a equipe para que ela se auto-gerencie vão"canibalizando", um a um, todos os pilares de sustentação até mergulharem no próprio caos de insegurança que geram e serem devorados por ele.
Administradores não podem se dar ao luxo de colocar seu foco exclusivamente no macro e perder a visão de que é o micro que o sustenta, como também de que é no micro que o macro tem inicio. Antes de pensar em crescer desmedidamente, há que se ter primeiro uma estrutura firme o suficiente para dar sustentação ao que virá como conseqüência dos primeiros esforços. Em suma: não se pode amadurecer a fruta prematuramente sem deteriorá-la ou abreviar sua vida útil.
A fórmula para um crescimento seguro obedece uma seqüência de passos que não podem ser atropelados, como exposto a seguir:
1) A menos que já traga uma boa experiência anterior, comece pequeno.
2) Concentre-se em fortalecer ao máximo a estrutura original, dando-lhe todas as condições para que ela se desenvolva de forma constante e irreversível até atingir a proporção satisfatória para o próximo momento.
3) Prepare os integrantes da estrutura para aumentar de forma segura e gradativa a sua autonomia, distribuindo de forma uniforme o poder de decisão para tudo o que for pertinente à área de atuação de cada um.
4) Defina muito bem o que quer, e busque estabelecer clara distinção entre o que realmente quer e aquilo que diz querer. Se você conduz pessoas por este último, a frustração e a insegurança que irá gerar quando se depararem com a realidade pode ser desastroso e o caminho mais curto para o desabamento de toda a estrutura.
5) Mantenha viva a lembrança de que informação é poder. Gerentes que seguram informações concentram poder em si mesmos e o retiram dos demais, e este poder se traduz não só no de comando, mas em capacidade de discernimento, de assimilação, de desenvolvimento, de execução de qualquer ação. Enfim, da preservação da governabilidade de toda a organização.
6) Planeje participativamente, fazendo com que toda a equipe se sinta gerando o caminho a ser percorrido.
7) Quando, por qualquer motivo, isso não puder ser feito de forma abrangente e sistemática, informe cada etapa não compartilhada a todos os envolvidos em tempo hábil para que se preparem para as ações. Isso fará com que se fortaleçam os métodos que irão garantir o sucesso da execução.
8) Não se concentre no macrosistema enquanto os sub-sistemas operacionais não estiverem consolidados. Comece por criar um modelo seguro de sustentação enquanto a estrutura for leve e fácil de conduzir. À medida que ela for dando mostras de preparo, vá acrescentando responsabilidades maiores e ampliando gradativamente a "autonomia de vôo".
9) Evite abrir multiplicidade de frentes enquando não estiver seguro do modelo a ser levado para cada nova frente a ser criada, e ter esse modelo-piloto funcionando de forma adequada e segura.
10) Ouse inverter a "pirâmide de satisfação", cuidando primeiro do cliente interno - a equipe - para que ela se sinta segura e bem preparada para oferecer seu melhor para o cliente externo. A ânsia por faturar no primeiro momento faz com que muitos empresários atropelem etapas fundamentais para garantir sustentabilidade a médio e longo prazos.
11) A palavra chave da segurança de qualquer equipe é tranparência. E transparência institucional se faz com planejamento em todos os níveis. As pessoas precisam saber o que têm que cumprir a curto, médio e longo prazos, o que se espera delas como resultado, quais os recursos com que poderão contar (e que não faltarão no momento em que a "batalha" estiver em seu auge), elas precisam saber em quanto importa o retorno que irão obter com sua participação - seja financeiro ou de qualquer outra natureza - e quando poderão contar com ele, para poderem planejar suas vidas.
12) Ser teimoso ou injusto não faz parte da história de sucesso de qualquer administrador, portanto busque sempre ouvir a opinião dos colaboradores, principalmente naquilo em que serão envolvidos, antes de tomar decisões que irão interferir em suas vidas.
Para concluir, não existe caminho mais curto e seguro para o caos do que tentar gerenciar uma organização em clima de total indefinição em relação aos seus rumos e a cada ação a ser levada a efeito no seu dia a dia. Quando as pessoas não sabem quem dá as respostas que precisam, o que podem e o que não podem fazer, a quem recorrer quando precisam de ajuda, o que é prioritário e o que pode esperar, quanto e quando vão receber por seu trabalho e, na dúvida sobre qualquer desses pontos, quem dá a palavra final, a organização pode ser comparada a uma briga de foice no escuro: ninguém sabe de onde virá o golpe que irá cortar-lhe a cabeça, mas todos sabem que, um pouco mais tarde ou dalí a pouco, esse momento será inevitável!