NEM SEMPRE O MELHOR VENCE
Consultor de Plantão nº 44
Que, por melhor que façamos, podemos sempre encontrar quem não seja tão bom e que, por algum motivo, se saia vencedor naquele momento, disso ninguém tem dúvida. Mas será que não fazer o possível para ser o melhor pode, igualmente, conferir-nos a vitória esperada sem nos submeter a tantos sacrifícios? O texto serve como reflexão para decidir sobre o que vale mais a pena.
Em tempos de Copa do Mundo muitas questões
sobre vitórias e derrotas podem vir à baila, muitas lições igualmente são
trazidas para a pauta das discussões e, se possível, aprendidas.
O “se possível” foi de propósito, pois nem todas, por mais que nos
pareça tão óbvio o que evidenciam, conseguem ser assimiladas por muitos,
independente do que ou de quem as ensina.
Em pleno mês de Copa do Mundo – a
apenas uma semana do seu início – fui convidado por uma entidade parceira
para ministrar treinamento a duas turmas de uma mesma cidade no interior do
Estado. O curso em questão não
abordava nenhum assunto novo: eu já
o havia ministrado em diversas ocasiões para públicos diversos e seu conteúdo
não representava nenhuma novidade para mim.
Tudo levava a crer que, longe de representar qualquer desafio, o trabalho
se resumiria a uma atividade rotineira dentre as variações já conhecidas
do meu elenco de serviços.
Mas o que sugeria um trabalho sem grandes
surpresas, ao se travar conhecimento com a realidade encontrada de repente
assumiu características de um dos mais dolorosos e frustrantes desafios com que
já me deparei ao longo de toda minha carreira.
A expressão que juntou as duas palavras
– “frustrante” e “desafio” – saltaram do texto como elementos
absolutamente conflitantes e inconciliáveis, já que desafio pressupõe
um forte estímulo para ser superado, e frustrante tem conotação nítida
de algo natimorto, do qual já sabemos de antemão não ter poder para
transformar. Daí porque eu mesmo
considerei estranho o impulso de reuni-las numa mesma expressão. Mas foi
exatamente o que traduziu melhor o sentimento resultante dessa sofrida experiência.
No decorrer da narrativa com certeza o leitor entenderá o porquê.
Logo ao primeiro contato com as duas
turmas – adultos jovens, estudantes de escolas públicas do município –
constatei uma absurda diferença entre os dois públicos, embora a cidade, as
condições sócio-culturais, a estrutura de apoio, a realidade contextual e o nível
de escolaridade fossem exatamente os mesmos.
O que os dois públicos traziam como diferença básica era o horário em
que estudavam: um pela manhã
e o outro à noite, o que concentrava um número maior de jovens entre 15 e 20
anos na primeira, e os mais velhos (de 15 a 30) na segunda.
Destes últimos a maioria trabalhava durante o dia, e na turma da manhã
90% eram apenas estudantes.
Difícil, no entanto, imaginar como
apenas esses dois elementos – a média da faixa etária e o horário –
poderiam exercer tamanha influência sobre a resposta obtida junto aos dois públicos
com realidades tão parecidas. Enquanto
que tudo o que se trabalhava na turma da noite era recebido com entusiasmo e
incontida alegria por conta da descoberta proporcionada, na da manhã não se
percebia ambiente sequer para ter-se a certeza de que alguma palavra ficara, de
tudo o que fora passado em quatro horas diárias de aula ao longo (e bota longo
nisso!) de quase 20 dias. Enquanto
que à noite éramos surpreendidos pela campainha anunciando o término da aula,
com a turma da manhã o tempo parecia arrastar-se de forma angustiante e
interminável. A atenção
com o conteúdo foi pouco a pouco perdendo espaço para a preocupação com a
disciplina, com o desrespeito reinante tanto entre eles próprios quanto em relação
à pessoa do instrutor, que eles faziam questão de tratar como se não
estivesse ali.
Como profissional acostumado a me deparar
com as mais críticas situações ao longo de 26 anos de carreira, aliando ainda
minha formação em planejamento estratégico para buscar
adequações às mais diferentes realidades encontradas, não deixei que
as primeiras impressões me levassem a abandonar a postura que eu sempre adotara
para tais casos: a de absorver tudo
o que podia da realidade do meu público e me concentrar na melhor forma de
atingir o objetivo proposto. E
a isso dediquei todos os meus momentos livres, levando essa busca até a exaustão.
Foi um duro e penoso trabalho – física e mentalmente falando – de
reestruturação do conteúdo, reavaliação das dinâmicas e técnicas de
transmissão, adequação da linguagem e tudo o mais que se fizesse necessário
para romper a resistência encontrada e conseguir deixar naqueles jovens alguma
coisa do que havia na proposta de capacitação.
Os dias de jogos do Brasil – quando as
escolas suspendiam as aulas para que os alunos pudessem assisti-los pela TV e
comemorar as vitórias da seleção – foram dedicados integralmente a tais
tarefas de adequação, sem um minuto de descanso nem para assistir aos jogos,
cuja atenção só se voltava para a TV (ligada baixinho no quarto do hotel)
quando o alarido geral à minha volta denunciava uma jogada decisiva do nosso
time na Alemanha.
E apesar de todo o sacrifício – que
poucas vezes foi tão intenso – nada, absolutamente nada, parecia se
transformar em qualquer mudança na resposta que se buscava obter daquela gente.
Por mais profundas que parecessem as adequações, era como se elas não
servissem sequer para arranhar a superfície de suas defesas contra tudo o que
ameaçasse o seu status quo. Eles
simplesmente não estavam predispostos e aceitar qualquer tipo de mudança na
realidade que construíram para si próprios:
não alimentavam qualquer expectativa em relação a seus futuros, não
demonstravam possuir qualquer vestígio de esperança de que algo à sua volta
poderia ser um dia diferente daquilo que vivenciaram até ali, e ponto final.
O indicador externo dessa constatação
é que estavam absoluta e incontrolavelmente refratários a qualquer tentativa
de se lhes substituir aquela realidade por qualquer outra que ainda não haviam
experimentado. Eu só não
empreguei o termo “definitivamente” por me recusar a aceitar que qualquer
pessoa humana, por mais endurecida que traga a sua alma, seja incapaz de
transforma-la um dia. Mas claro
estava que se tal feito fosse possível com aqueles jovens, por certo não o
seria em poucos dias de convívio, mas somente com um longo e exaustivo trabalho
de redirecionamento de suas crenças, de seu esquema de valores, de princípios
e visão de mundo, o que, infelizmente, estava totalmente fora do meu alcance
naquele momento. Daí a
enorme sensação de frustração que me dominou ao ver terminado o trabalho sem
que nada me fosse facultado senão constatar que tudo o que eu falara durante as
exposições, todos os exemplos que havia explorado ou tentativas de sensibilização
empregadas em pouco ou nada resultaram. Na
verdade, saí com uma quase insuportável sensação de que eles sequer as
ouviram.
Difícil descrever tal sentimento, mas
era algo doído no corpo e na alma (o peito, a cada aula encerrada,
efetivamente doía como se me faltasse ar nos pulmões) e que deixava um
gosto amargo de derrota, de impotência, de desilusão em relação à própria
capacidade de transformação, queimando como brasa dentro do peito. Eu olhava o rosto daqueles jovens e lia em seus olhares
uma espécie de ufanismo interior por se sentirem “vencedores” naquela medição
de forças entre educador e “educandos”.
Era, ironicamente, a vitória da ignorância e da mediocridade contra o
esforço do crescimento. Estava
visível que desafiar a “autoridade” representada pelo educador era a forma
que encontravam para se sentirem mais fortes que a dura realidade à sua volta.
Ao retornar do trabalho a sensação de
derrota naquela turma persistiu ainda por vários dias.
Eu não conseguia sequer digerir o efeito de tantos sentimentos negativos
promovidos por aquele grupo de jovens, pouco mais que adolescentes numa sala de
aula do interior, principalmente quando eu olhava para meus 26 anos de carreira
em consultoria em que tive como público alguns
ministros de estado, ministrei inúmeras conferências em universidades e
orientei funcionários de alto escalão do governo.
Via agora todo o meu histórico atropelado
por um grupo de garotos de miolos frágeis como uma lesma, mas absurdamente
protegidos por uma couraça de ignorância, mais rígida que a carapaça de um
quelônio pré-histórico, e o sentimento de não ter podido contribuir em nada
para melhorar suas vidas me dilacerava as entranhas.
Foi ainda com esse sentimento que pude,
finalmente em casa, assistir ao último jogo do Brasil na Copa da Alemanha
contra a França de Zidane. O primeiro jogo em que pude, efetivamente, sentar-me
em frente à TV, e assisti-lo do começo ao fim, compartilhando do sentimento de
frustração que tomou conta de 200 milhões de brasileiros neste sofrido 1º de
julho. A frustração como
torcedor, durante a partida, só foi amenizada pela admiração proporcionada
pela magistral exibição do atacante francês, a genialidade indiscutível em
campo do “carrasco” Zidane. Ele
reinou absoluto, brilhante, “magnifique”, como diriam seus conterrâneos.
Seus dribles deslumbrantes e inacreditáveis, retomando o domínio da
bola após passa-la por cima das cabeças ou por debaixo das pernas dos nossos
jogadores deixariam perplexos tanto o mais indiferente dos espectadores quanto o
mais habilidoso dos “Ronaldinhos”, que teriam que se render a sua atuação
absolutamente genial.
Ainda não refeito do estado de
perplexidade – como todos os brasileiros frente àquela pífia tentativa de
jogo da nossa seleção em campo, àquela vergonhosa passividade e absoluta
prostração moral de nossos jogadores contra a França – assisto nesta manhã
pela TV ao desembarque do técnico Parreira e de alguns outros jogadores em solo
brasileiro. Foi quando o
Capitão do time, o veterano Cafu, nas poucas palavras que dirigiu à imprensa
– sem sequer olhar para os repórteres – pronunciou, literalmente, esta
frase:
– Nem sempre o melhor vence!
Não sei dizer qual dos dois momentos promoveu mais perplexidade entre todos os que os testemunharam: se assistir a seleção perder o jogo daquela forma tão indigna, ou se ouvir o Capitão do time dando tal declaração no momento de pisar o solo pátrio, que o endeuzou ao longo de anos de trabalho como jogador e o remunerou a peso de ouro em troca dos momentos de alegria proporcionados: “Nem sempre o melhor vence”.
O que eu sei é que a frase do Capitão
Cafu me proporcionou um entendimento instantâneo dos meus sentimentos em relação
ao trabalho do qual, assim, como ele, eu retornava após ter sido submetido a tão
intenso processo de frustração ao final.
Ao mesmo tempo em que o entendimento se fez presente, também foi como se
Cafu me arrancasse do peito, com aquelas cinco palavrinhas, todo o peso que eu
carregara até aquele instante em que o assistia pela TV:
ele, como estrela de renome e fama internacionais, eu, como profissional
anônimo deste país em eterna luta – não reconhecida – pela sobrevivência.
Suas palavras calaram fundo em meu peito e em minha alma: “Nem sempre o melhor vence!”.
Absolutamente verdadeiras suas palavras,
Capitão Cafu! De profundidade
indiscutível: a superioridade, com toda certeza, jamais será garantia de vitória
todas as vezes. Porém você se
esqueceu de mencionar o mais importante, caro Capitão:
o que faz a superioridade não é o passado nem é a fama, muito menos a
arrogância de julgar-se perfeito em função do histórico de vitórias, ou o
pedestal em que se subiu até onde se está.
Eu estava me sentindo péssimo por não ter trazido o resultado que
esperava, como todos os brasileiros nesta Copa, mas no meu caso, Cafu, eu
lutei até o fim, eu não permiti que meu sentimento de frustração por não
atingir o resultado esperado interferisse no meu empenho para busca-lo o tempo
todo! Você, com sua frase, me
mostrou que tal resultado, diferentemente
do trabalho de vocês, aconteceu independente desse esforço, e que não fui eu
quem entregou o jogo em nenhum momento: o time de lá, sim, foi quem
escolheu ser perdedor, apesar de sua aparente vitória.
Você me fez ver o que eu não estava conseguindo sozinho, Cafu: que se pode perder inúmeras batalhas sem desistir de ganhar-se a guerra. É preciso estar atento o tempo todo para rever estratégias, reavaliar o contexto, entender a nova realidade! Eu fiz isso! E essa é a diferença entre os nossos respectivos resultados. Vocês entraram como os melhores, e voltaram ainda se vendo como os melhores, como você declarou, apesar da realidade mostrar o contrário! O que você disse é verdadeiro, sim: “Nem sem o melhor vence”, mas a recíproca não o é. A arrogância e a falta de humildade para reconhecer os erros podem transformar antigos heróis em eternos perdedores. Pense nisso para 2010. Eu procurarei não esquece-lo para o resto dos meus dias.