"Pode-se
enganar alguém durante muito tempo. Pode-se também enganar a muitos durante
algum tempo. Mas nunca se conseguirá enganar a todos durante todo o tempo".
Sir
Winston Churchill
Não se engane! Liderar por manipulação não é para qualquer um: exige bastante talento. Principalmente porque vai ser preciso dosar bastante malícia, um bom índice de auto-controle, uma postura "compreensiva" do tipo "só quero o seu bem" e, de preferência, contar com um séquito de pessoas altamente aproveitadoras oferecendo sustentação de poder em troca das tetas oferecidas pelo líder manipulador.
*Luiz Roberto Bodstein
O tipo de liderança exercida por manipulação é um desses que se leva um bom tempo para ser percebido. E talvez essa seja a principal razão pela qual, depois que "cai a ficha", as seqüelas permaneçam para sempre: as pessoas ludibriadas em sua boa fé pelo incrível poder de sedução do manipulador jamais irão perdoá-lo por tê-las feito de idiotas durante o tempo de convívio - quando acreditavam ter todo o apoio de quem, na verdade, só queria usá-las para atingir os próprios objetivos, muitas vezes até envolvendo-as em propósitos pouco confiáveis e comprometendo suas reputações construídas com sacrifício ao longo de toda uma vida!
A raposa e suas ovelhas
Talvez poucos males produzidos por alguém possam deixar tantas cicatrizes quanto a manipulação exercida de forma intencional e continuada por um líder manipulador sobre suas vítimas - enquanto parceiros de equipe - pois, quando estas finalmente despertam para tal fato, o sentimento que se lhes invade é algo devastador, que promove uma profunda ruptura com todo o estado de coisas com que conviveram ao longo de tanto tempo e que, invariavelmente, desperta revolta, muita mágoa, uma sensação quase insuportável de pequenez, por terem sido subestimadas em sua inteligência e passadas por imbecis nas mãos do manipulador. Por conta disso raramente o relacionamento tem volta.
Mas também há exceções. E nesse caso poderíamos dizer que a continuidade da relação dependerá muito mais das características da "ovelha" vítima: se ela possuir um forte traço político em sua personalidade, além de segurança para manter-se no "campo de batalha", poderá permanecer por escolha, só que agora de forma consciente e, por sua vez, fingindo fazer o jogo do líder enquanto direciona suas ações para seus próprios objetivos, ocupando seu espaço de forma incisiva e firme. O lider manipulador nem sempre gosta, mas sente firmeza na competência dessa ovelha e procura manter dela uma distância respeitosa, já que é melhor tê-la por perto como amiga do que longe de seus olhos, como inimiga.
Uma outra pode também permanecer mas, diferentemente da primeira, por falta de uma segunda alternativa, por mero descaso e acomodação ou até por vingança: adota a postura do tipo "Ah, é assim? Então dane-se! Tiro o meu e a empresa que se lixe!". É o tipo mais clássico em que vítima e manipulador se merecem mutuamente. Este tipo de vítima adota a conhecida filosofia do "você finge que me paga que eu finjo que trabalho", e ponto final! Para o lider manipulador não é dos mais inconvenientes, pois ambas as partes podem continuar fazendo o que querem sabendo que não serão incomodadas: uma regendo a banda como sempre fez e a outra fazendo-se de morta, no mais puro estilo do tragicômico "eu nem estou aqui!", que imortalizou alguns políticos em programas cômicos na TV. Modelo desprezível para os que dependem de sua atuação, mas nem tão raro assim!
O terceiro tipo de vítima é o dos que "tiram o time" por não suportar conviver com o jogo praticado no tabuleiro do líder, nem com as personagens que vão sendo criadas em torno dele, cada qual no seu estilo, como estratégia de sobrevivência. Esta espécie de vítima é a menos comum das três citadas, porque sempre implica em uma forte dose de coragem para encarar a situação de frente e tomar a decisão que a constatação requer - independente dos conflitos que certamente serão gerados - e desprendimento em relação às vantagens que conseguiria se escolhesse ficar na sua. É o daquelas pessoas que "viram a mesa" quando se percebem envolvidas nos expedientes das manipulações, pois sua personalidade é a de questionar o que está errado e não admitir "tampar o sol com a peneira", encarando a ação corretiva como única alternativa decente. Geralmente seu enfoque está alicerçado em um forte compromisso com seus princípios - maior até do que o valor que atribuem aos relacionamentos - e ausência ou pouquíssimo dom para a política, que lhes permitiria encontrar alguma forma de conviver com a situação e concentrar-se nos ganhos mais à frente. Fazem parte de um time constituido por pessoas de reações transparentes e diretas - talvez mais transparentes do que deveriam num ambiente de empresa, via de regra muito mais propenso a acolher jogos de poder e "conciliações" políticas.
O preço pago
Como foi dito no início, exercer a liderança através da manipulação requer muito talento, mas também tem seu preço. O líder que a pratica tem uma tendência para acreditar que suas manobras jamais serão percebidas, tal a habilidade com que "contorna" as diferentes situações de confronto em que se vê envolvido. Ele geralmente confia na sua competência para dar sempre a melhor explicação para as situações "aparentemente equivocadas" que adota. Tem sempre um jeitinho todo especial para demonstrar a sua "verdadeira intenção por trás das aparências", e do quanto todos poderão lucrar se confiarem nele.
Porém toda moeda tem dois lados: concentra-se tanto em mostrar a Coroa para os outros que esquece de esconder a verdadeira Cara que tem. No afã de atingir tudo o que se propôs sai atropelando a tudo e a todos, e acaba se perdendo no meio das centenas de situações que forja para convencer os outros de que juntar-se a ele é a melhor alternativa. Sai em busca da Meta de Chegada sem perceber o lixo pulando da caçamba, tal o acúmulo de dejetos acumulados, deixando um rastro de sujeira fedorenta pelo caminho que ele nem se dá ao luxo de perceber, pois que nunca olha para trás. Quem está na frente olhando-o passar só consegue ver o brilho da mão de tinta que tenta disfarçar a ferrugem do caminhão por baixo dela. Mas quem olha por trás não consegue ver nada além dos detritos que vão ficando pelo caminho, que nem sequer passa pela preocupação de quem dirige o caminhão.
Ah, vocês
devem estar curiosos para saber como fica a situação dos que estão junto com
o líder no caminhão, acertei? Considerando-
O segundo tipo - o que se finge de morto - continua na sua, como se não tivesse nada a ver com a coisa e, se questionado, pode até dizer: "E tem jeito? Eu é que não vou ficar me desgastando com isso!".
O
terceiro tipo - do que vira a mesa quando a ficha cai - passa a maior parte do
tempo correndo atrás do caminhão, tentando recolher o lixo derramado antes que
os transeuntes o percebam e, tirando os momentos em que o líder o faz
acreditar que está ajudando a dirigir o caminhão, se ocupa no resto do
tempo em "enxugar gelo", isto é: recolher lixo
e mais lixo do caminho, que vai ser a sua tarefa mais constante e interminável.
Só que logo irá descobrir que é só esse o seu papel: recolher
o lixo! Percebe também que dia a dia os que estão olhando de fora vão
lhe colocando mais e mais coisas nos ombros quando fica evidente que não podem
confiar no "motorista" do caminhão. O desgaste e o
esmorecimento serão inevitáveis!.
É quando a mesa é virada e o caldo entorna. O conflito acontece de forma total e irreversível. A única opção aceita é o afastamento, e ele pula fora antes que o inevitável naufrágio aconteça. Este tipo de vítima recusa-se a continuar sendo ovelha - consciente ou não - e também sabe que nada poderá fazer para reverter o processo, nem tampouco salvar o navio do naufrágio iminente. Adquire consciência de que tudo é só uma questão de tempo, talvez até pela quantidade de tripulantes e passageiros que também estão escolhendo pular nágua e se afastar nadando para não serem tragados pelo barco que afunda! Em todos que escolheram pular o sentimento é o mesmo: muita mágoa, revolta, sentimento de impotência para evitar o desastre!
Ah! Tem ainda o time de sustentação do poder, escolhidos a dedo pela Raposa, lembram? À medida que o barco vai fazendo água a gente vai parcebendo que tem caras novas ocupando as posições na cabine do piloto. Só os menos espertos, mais suscetíveis às manobras de convencimento, permanecem respondendo aos acenos de recompensas e de dias melhores que nunca chegam, até ser tarde demais para pularem e afundarem junto com o capitão, o que, como já foi dito, é só uma questão de tempo!
Atenção
então, ó raposas de plantão: pode ter gente aínda que
está na frente do caminhão e só está vendo por enquanto o brilho da mão de
tinta escondendo a ferrugem. Mas quanto mais tempo se passa, mais
gente está posicionada na parte de trás, olhando para o lixo derrubado. Hora
de botar os bigodes de molho, já que raposa não é bode!
E vocês, ovelhas não despertas ou pouco espertas: que o barco
vai pro fundo, disso ninguém duvida, e ele não vai separar os muito confiantes
dos acomodados..