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Responsabilidade Social - Uma visão holística
Consultor de Plantão nº 49

 

Já há algum tempo que responsabilidade social dizia respeito somente às empresas.  Os novos tempos cobram, cada vez mais, uma consciência coletiva quanto aos papéis e aos atores em relação ao resultado obtido no contexto sócio-ambiental em que vivemos.

                                                                                                                   *Luiz Roberto Bodstein

 

 

Vivemos um momento em que Responsabilidade Social deixou de ser assunto com ator definido, ou seja, que é vista como algo que deva ser exercido por um determinado agente de quem se possa exigir cumprimento, como até há bem pouco tempo atrás.   Para entendermos o porquê dessa nova visão teríamos que retroagir à própria origem das sociedades modernas, cuja polarização entre uma imensa maioria pobre e uma ínfima minoria que concentrava riqueza e poder era a célula básica de sua estrutura de sustentação.  

Ainda que uma visão da sociedade dividida entre vassalos e suseranos tenha, teoricamente, seus registros situados na Idade Média, podemos afirmar que essa mentalidade baseada num conceito feudal da sociedade persistiu até hoje em qualquer dos nossos grandes centros urbanos.  Face ao crescimento descontrolado da população mundial e à desordenada ocupação dos espaços nas grandes metrópoles – em que os recursos naturais foram se tornando cada vez mais escassos – a maioria carente continuou a pensar na manutenção da estrutura social como de responsabilidade da minoria abastada que, por sua vez, ao trazer para si a concentração do poder, assume com muita freqüência esse papel de "provedor social", dando apenas um novo formato à mentalidade reinante no tempo das cruzadas.   

Só que o momento social que atravessamos não pode – nestes dias de cada vez menos recursos – prescindir do comprometimento de todos os indivíduos na condução de seus rumos, por conta desse mesmo crescimento fora de controle.  Dessa forma, Responsabilidade Social hoje não é mais de atribuição única do Estado, nem algo a ser cobrado das empresas como “dever” embutido no seu papel social para com os cidadãos que se colocam na cômoda posição de meros pacientes de tudo o que estes dois agentes lhes podem proporcionar.   Ela se tornou obrigação de todos:  poder público, organizações e população que, de forma equivalente, cumprem cada qual o seu papel na formação de uma sociedade mais digna para todos.  E a dignidade de que falamos aqui não se trata meramente de reconhecimento do indivíduo enquanto cidadão, mas da união de forças para garantir-se as condições mínimas para a própria sobrevivência humana.   

Numa visão sistêmica da trajetória percorrida, poderíamos dizer que a evolução da Responsabilidade Social começou concentrada nos detentores do poder, mais tarde foi  por estes cobrada das organizações e, finalmente, chegou até cada indivíduo, no que diz respeito ao protagonismo para que suas ações se efetivem.   Assim sendo – e agora colocando o enfoque no cidadão – não há como dizer hoje que este último possa exercer sua cidadania simplesmente colocando-se como paciente das iniciativas dos outros dois.  Aliás, o foco da iniciativa foi passando de um para o outro, e agora está mais homogeneamente distribuída entre estes três agentes:   o Estado passando de mero provedor a facilitador do processo, as empresas como meio – em que entra com tecnologia e recursos – e o cidadão atuando como executor e, ao mesmo tempo, exercendo o papel de fiscal dos resultados na parte que toca aos outros dois, papel esse legitimado pelos impostos que paga.   

No exercício de tais atribuições o cidadão cuida de garantir que a expressão “crescimento” – aplicada ao contexto social – realmente se configure como sinônima de desenvolvimento, ao invés de se apresentarem como opostas no que diz respeito à ocupação responsável dos espaços.   E, como protagonista que passou a ser, adota voluntariamente as iniciativas que movimentam toda a estrutura social para que o objetivo maior da qualidade de vida seja respeitado por todos.   

Isso se traduz em bem mais do que ações pontuais eventualmente realizadas quando convidados a compor uma parceria com o Estado ou com as empresas:  cumpre-lhe assumir sua parte na construção de uma nova mentalidade, e fazer diferença em todo o contexto ambiental no qual se insere enquanto cidadão.  Mas, antes de tudo, ocupar sua posição como agente e paciente do efeito que qualquer dos três atores promove no meio ambiente – que todos dividem de forma igual e, portanto, têm suas responsabilidades igualmente divididas.   

A partir da tomada de posição pelo cidadão com relação ao seu papel na geração,  divisão e cobrança de ações, ele exercita sua cidadania de forma plena quando atua como “mola impulsora” de posturas que irão retornar para ele em forma de benefícios, tomando-se este cidadão aqui mencionado no seu sentido mais amplo – seja ele um homem do povo, um empresário ou um representante do poder público – pois que, independente da posição que ocupa na estrutura social, os direitos e deveres em relação ao meio ambiente é compartilhado por todos.   

Assim, quando o indivíduo se recusa a fazer compras num supermercado que distribui diariamente milhares de sacos plásticos (os quais levam 100 anos para se decompor na natureza), escolhe seus produtos entre fornecedores que oferecem versões biodegradáveis, ou contribui para transformar o óleo utilizado na cozinha em fonte “limpa” de produção de energia, ele passa uma mensagem clara para as empresas produtoras de que ele não adota mais uma postura de mero consumidor, mas de responsável pelo meio social e ambiental como um todo, participando ativamente da construção de uma sociedade bem melhor onde todos somos protagonistas, e não mais espectadores da responsabilidade alheia.