Já
há algum tempo que responsabilidade social dizia respeito somente às empresas.
Os novos tempos cobram, cada vez mais, uma consciência coletiva quanto
aos papéis e aos atores em relação ao resultado obtido no contexto sócio-ambiental
em que vivemos.
*Luiz Roberto Bodstein
Vivemos um momento
Ainda que uma visão da sociedade dividida entre vassalos e suseranos
tenha, teoricamente, seus registros situados na Idade Média, podemos afirmar
que essa mentalidade baseada num conceito feudal da sociedade
persistiu até hoje em qualquer dos nossos grandes centros urbanos. Face
ao crescimento descontrolado da população mundial e à
desordenada ocupação dos espaços nas grandes metrópoles – em que os
recursos naturais foram se tornando cada vez mais escassos – a maioria carente
continuou a pensar na manutenção da estrutura social como de responsabilidade
da minoria abastada que, por sua vez, ao trazer para si a concentração do
poder, assume com muita freqüência esse papel de "provedor social",
dando apenas um novo formato à mentalidade reinante no tempo das cruzadas.
Só que o momento social que atravessamos não pode
– nestes dias de cada vez menos recursos – prescindir do comprometimento de
todos os indivíduos na condução de seus rumos, por conta desse mesmo
crescimento fora de controle. Dessa
forma, Responsabilidade Social hoje não é mais de atribuição única do
Estado, nem algo a ser cobrado das empresas como “dever” embutido no seu
papel social para com os cidadãos que se colocam na cômoda posição de meros
pacientes de tudo o que estes dois agentes lhes podem proporcionar.
Ela se tornou obrigação de todos:
poder público, organizações e população que, de forma equivalente,
cumprem cada qual o seu papel na formação de uma sociedade mais digna para
todos. E a dignidade de que falamos
aqui não se trata meramente de reconhecimento do indivíduo enquanto cidadão,
mas da união de forças para garantir-se as condições mínimas para a própria
sobrevivência humana.
Numa visão sistêmica da trajetória percorrida,
poderíamos dizer que a evolução da Responsabilidade Social começou
concentrada nos detentores do poder, mais tarde foi por
estes cobrada das organizações e, finalmente, chegou até cada indivíduo, no
que diz respeito ao protagonismo para que suas ações se efetivem.
Assim sendo – e agora colocando o enfoque no cidadão – não há
como dizer hoje que este último possa exercer sua cidadania simplesmente
colocando-se como paciente das iniciativas dos outros dois.
Aliás, o foco da iniciativa foi passando de um para o outro, e agora está
mais homogeneamente distribuída entre estes três agentes: o Estado
passando de mero provedor a facilitador do
processo, as empresas como meio – em
que entra com tecnologia e recursos – e o cidadão atuando como executor e, ao
mesmo tempo, exercendo o papel de fiscal dos resultados na parte que toca aos
outros dois, papel esse legitimado pelos impostos que paga.
No exercício de tais atribuições o cidadão cuida
de garantir que a expressão “crescimento” – aplicada ao contexto social
– realmente se configure como sinônima de desenvolvimento,
ao invés de se apresentarem como opostas no que diz respeito à ocupação
responsável dos espaços. E,
como protagonista que passou a ser, adota voluntariamente as iniciativas que
movimentam toda a estrutura social para que o objetivo maior da qualidade de
vida seja respeitado por todos.
Isso se traduz em bem mais do que ações pontuais
eventualmente realizadas quando convidados a compor uma parceria com o Estado ou
com as empresas: cumpre-lhe
assumir sua parte na construção de uma nova mentalidade, e fazer diferença em
todo o contexto ambiental no qual se insere enquanto cidadão.
Mas, antes de tudo, ocupar sua posição como agente e paciente do efeito
que qualquer dos três atores promove no meio ambiente – que todos dividem de
forma igual e, portanto, têm suas responsabilidades igualmente divididas.
A partir da tomada de posição pelo cidadão com relação
ao seu papel na geração, divisão
e cobrança de ações, ele exercita sua cidadania de forma plena quando atua
como “mola impulsora” de posturas que irão retornar para ele em forma de
benefícios, tomando-se este cidadão
aqui mencionado no seu sentido mais amplo – seja ele um homem do povo, um
empresário ou um representante do poder público – pois que, independente da
posição que ocupa na estrutura social, os direitos e deveres em relação ao
meio ambiente é compartilhado por todos.
Assim, quando o indivíduo se recusa a fazer compras num supermercado que distribui diariamente milhares de sacos plásticos (os quais levam 100 anos para se decompor na natureza), escolhe seus produtos entre fornecedores que oferecem versões biodegradáveis, ou contribui para transformar o óleo utilizado na cozinha em fonte “limpa” de produção de energia, ele passa uma mensagem clara para as empresas produtoras de que ele não adota mais uma postura de mero consumidor, mas de responsável pelo meio social e ambiental como um todo, participando ativamente da construção de uma sociedade bem melhor onde todos somos protagonistas, e não mais espectadores da responsabilidade alheia.