O desafio da mudança
Consultor de Plantão nº 50

"Senhor, dá-me coragem para mudar as coisas que podem ser mudadas, serenidade para
aceitar as que não podem, e sabedoria para distingüir uma da outra. " 

                                                                                                                São Francisco de Assis

 

Mudança é uma coisa que faz parte do cotidiano de todas as pessoas, mas, apesar disso, poucos são os que se sentem confortáveis para enfrentá-la, principalmente quando a iniciativa de promovê-la não nos coube.  E quanto mais desconhecermos os objetivos e critérios adotados, mas inseguros ficamos para aceitá-la com serenidade.  O mais difícil nem sempre é aceitar o novo, mas ter que abrir mão da zona de conforto proporcionada pelo antigo já dominado e sob controle.

                                                                                                                   *Luiz Roberto Bodstein

 

 

Mudar alguma coisa sempre requer uma significativa dose de coragem e perseverança, principalmente quando é visível a resistência para que a mudança se faça. E resistências à mudança é algo que dificilmente não haverá, posto que mudar significa sair da nossa zona de conforto - onde tudo é conhecido e se mostra sob controle - para uma situação nova, desconhecida, e que não dominamos. Quando a ação de mudança é exercida sobre os outros, a resistência ocorrerá por conta das pessas se virem na contingência de renunciar a uma situação da qual sabidamente já extraem benefícios para outra que ainda não conseguem vislumbrar como mais vantajosa. A pergunta que se fazem, então, em relação à mudança, é: "Estarei perdendo ou ganhando com a troca?" Enquanto essa equação não estiver clara, a resistência será inevitável.

Quando a mudança é exercida sobre nós mesmos, é necessário que a motivação interna seja legítima, ou seja: que estejamos plenamente convencidos de que é necessária, posto que não nos resta mais qualquer dúvida quanto aos benefícios a serem obtidos com a troca do padrão antigo pelo novo que se pretende introduzir. Uma vez conscientes disso, tudo se torna mais fácil.

Entretanto, se não for possível perceber de forma clara a questão do benefício entre o antigo e o novo, ou se a mudança que desejamos impor a nós mesmos representa um preço alto demais para sua aceitação, então o conflito interno se estabelece, e tanto a escolha pelo novo quanto a manutenção do antigo podem ser igualmente razões para intenso sofrimento. Haverá necessidade de se pesar, com muita serenidade e ponderação, o valor que ambos representam na nossa vida: se a adoção do novo representa realmente o bem maior - pelo qual se pode deixar para trás toda a realidade a que se esteve entregue até alí - ou se isso significa abrir mão de alguma estrutura de sustentação, algo sem o qual estaremos nos afastando de nossa própria essência e jamais nos trará felicidade, por forçar-nos a ser algo completamente diferente do que realmente somos. E ninguém conseguirá manter um sapo eternamente atravessado na garganta - subtraindo-lhe o ar que respira - sem que este possa ser devidamente digerido algum dia. Não resta, nesse caso, outra alternativa que não a de pesar bem os dois pratos da balança, escolher o que menos machuca, e buscar serenidade para aceitar a perda do outro. A serenidade vai contar muito também para se esperar pelo momento em que as coisas se mostrem menos confusas, o que nem sempre acontece de imediato, por simples ação da vontade.

O entendimento do que nos é mais vital exige, muitas vezes, um enorme esforço: tanto para reunir a coragem necessária para enfrentar as vicissitudes decorrentes das resistências externas e internas da mudança necessária, quando para dominar o profundo sentimento de frustração e impotência que se seque à renúncia de um dos dois lados, quando ainda nos sentimos com grande dificuldade para abrir mão de qualquer um deles. Buscar a consciência plena dos beneficios da opção feita será sempre confortante, trazendo como decorrência a serenidade definitiva quanto à aceitação dessa escolha. Isso é sabedoria! 

Há que se lembrar que a escolha necessáriamente não precisa recair integralmente sobre um dos pratos da balança em detrimento do outro, mas também sobre o fiel do intrumento entre os dois pratos. Embora esta alternativa possa significar uma "acomodação" para a situação de conflito, pode também - com toda certeza - representar o desafio maior, que é conviver com duas situações supostamente conflitantes sem que qualquer delas promova a anulação da outra. Em resumo: o grande desafio é encontrar o equilíbrio, a forma de conviver com as diferenças, não entender este convívio como uma derrota pessoal em relação ao seu esquema de crenças e valores, mas como uma vitória sobre si mesmo para aceitar o que lhe chega diferente do que acreditou certo até ali mas, não necessariamente, "errado" em relação ao aceitável, ou que inviabilize essa aceitação pelo seu entendimento. Sabedoria, antes de tudo, é discernimento - capacidade de julgar o conveniente ou inconveniente das coisas de forma clara e sensata. E ninguém, além do seu coração, poderá lhe ditar o que é mais conveniente para você mesmo. Na pior das hipóteses, será aquilo que pode fazê-lo feliz em preservar - sem violentar seus sentimentos - para que esteja em paz e em harmonia consigo mesmo.