"Senhor, dá-me coragem
para mudar as coisas que podem ser mudadas, serenidade para
aceitar as que
não podem, e sabedoria para distingüir uma da outra.
"
São Francisco de Assis
Mudança é uma coisa que faz parte do cotidiano de todas as pessoas, mas, apesar disso, poucos são os que se sentem confortáveis para enfrentá-la, principalmente quando a iniciativa de promovê-la não nos coube. E quanto mais desconhecermos os objetivos e critérios adotados, mas inseguros ficamos para aceitá-la com serenidade. O mais difícil nem sempre é aceitar o novo, mas ter que abrir mão da zona de conforto proporcionada pelo antigo já dominado e sob controle.
*Luiz Roberto Bodstein
Mudar alguma coisa sempre requer uma significativa dose de coragem e
perseverança, principalmente quando é visível a resistência para que a mudança
se faça. E resistências à mudança é algo que dificilmente não haverá, posto que
mudar significa sair da nossa zona de conforto - onde tudo é conhecido e se
mostra sob controle - para uma situação nova, desconhecida, e que não dominamos.
Quando a ação de mudança é exercida sobre os outros, a resistência ocorrerá por
conta das pessas se virem na contingência de renunciar a uma situação da qual
sabidamente já extraem benefícios para outra que ainda não conseguem vislumbrar
como mais vantajosa. A pergunta que se fazem, então, em relação à mudança, é:
"Estarei perdendo ou ganhando com a troca?" Enquanto essa equação não estiver
clara, a resistência será inevitável.
Quando a mudança é exercida sobre
nós mesmos, é necessário que a motivação interna seja legítima, ou seja: que
estejamos plenamente convencidos de que é necessária, posto que não nos resta
mais qualquer dúvida quanto aos benefícios a serem obtidos com a troca do padrão
antigo pelo novo que se pretende introduzir. Uma vez conscientes disso, tudo se
torna mais fácil.
Entretanto, se não for possível perceber de forma clara
a questão do benefício entre o antigo e o novo, ou se a mudança que desejamos
impor a nós mesmos representa um preço alto demais para sua aceitação, então o
conflito interno se estabelece, e tanto a escolha pelo novo quanto a manutenção
do antigo podem ser igualmente razões para intenso sofrimento. Haverá
necessidade de se pesar, com muita serenidade e ponderação, o valor que ambos
representam na nossa vida: se a adoção do novo representa realmente o bem maior
- pelo qual se pode deixar para trás toda a realidade a que se esteve entregue
até alí - ou se isso significa abrir mão de alguma estrutura de sustentação,
algo sem o qual estaremos nos afastando de nossa própria essência e jamais nos
trará felicidade, por forçar-nos a ser algo completamente diferente do que
realmente somos. E ninguém conseguirá manter um sapo eternamente atravessado na
garganta - subtraindo-lhe o ar que respira - sem que este possa ser devidamente
digerido algum dia. Não resta, nesse caso, outra alternativa que não a de pesar
bem os dois pratos da balança, escolher o que menos machuca, e buscar serenidade
para aceitar a perda do outro. A serenidade vai contar muito também para se
esperar pelo momento em que as coisas se mostrem menos confusas, o que nem
sempre acontece de imediato, por simples ação da vontade.
O entendimento
do que nos é mais vital exige, muitas vezes, um enorme esforço: tanto para
reunir a coragem necessária para enfrentar as vicissitudes decorrentes das
resistências externas e internas da mudança necessária, quando para dominar o
profundo sentimento de frustração e impotência que se seque à renúncia de um dos
dois lados, quando ainda nos sentimos com grande dificuldade para abrir mão de
qualquer um deles. Buscar a consciência plena dos beneficios da opção feita será
sempre confortante, trazendo como decorrência a serenidade definitiva quanto à
aceitação dessa escolha. Isso é sabedoria!
Há que se lembrar que a
escolha necessáriamente não precisa recair integralmente sobre um dos pratos da
balança em detrimento do outro, mas também sobre o fiel do intrumento entre os
dois pratos. Embora esta alternativa possa significar uma "acomodação" para a
situação de conflito, pode também - com toda certeza - representar o desafio
maior, que é conviver com duas situações supostamente conflitantes sem que
qualquer delas promova a anulação da outra. Em resumo: o grande desafio é
encontrar o equilíbrio, a forma de conviver com as diferenças, não entender este
convívio como uma derrota pessoal em relação ao seu esquema de crenças e
valores, mas como uma vitória sobre si mesmo para aceitar o que lhe chega
diferente do que acreditou certo até ali mas, não necessariamente, "errado" em
relação ao aceitável, ou que inviabilize essa aceitação pelo seu entendimento.
Sabedoria, antes de tudo, é discernimento - capacidade de julgar o conveniente
ou inconveniente das coisas de forma clara e sensata. E ninguém, além do seu
coração, poderá lhe ditar o que é mais conveniente para você mesmo. Na pior das
hipóteses, será aquilo que pode fazê-lo feliz em preservar - sem violentar seus
sentimentos - para que esteja em paz e em harmonia consigo
mesmo.