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Lé com Lé, Cré com Cré

Consultor de Plantão nº 53 

 

Quando se trata de prestar atendimento  ao cliente,  ainda  tem  gente  que  mistura estação,  confundindo a forma receptiva e simpática de seus clientes ao longo dos contatos como abertura para intimidade, e é aí que a porca torce o rabo! 

*Luiz Roberto Bodstein

Numa sexta-feira passei na oficina para solicitar uns pequenos ajustes em minha moto, mas o atendente informou que precisaria apanhá-la no dia seguinte, em função de outros trabalhos na frente.  Como cairia num sábado, perguntei até que horas a loja permaneceria aberta para eu buscá-la.  “Até às 13:00 horas, respondeu o rapaz, mas às 11:00 horas já estará pronta!”  “OK” – falei – “Então passo aqui amanhã prá pegar!”.

No dia seguinte eu aproveitei a manhã livre de comércio aberto para fazer algumas compras, e após tudo concluído segui para oficina.  Cheguei lá por volta de 12:20h, e encontrei a loja já sendo preparada para cerrar as portas, com o atendente na porta.   

Vale dizer que eu comprara a moto na mesma loja há coisa de um ano e meio, e passara pela oficina deles em várias ocasiões para as revisões de rotina, e tinha estabelecido um ótimo relacionamento com o casal proprietário, pessoas que me agradaram pela postura sempre atenciosa e confiável.  Ao perceber que eu me aproximava, o rapaz fez um muxoxo e bateu com o indicador sobre o relógio de pulso, como me dizendo: “Está atrasado, meu caro!”.  Eu passei por ele em direção à oficina nos fundos da loja, apenas respondendo: “Você me disse que a loja fecha às 13:00 horas, não foi? Ainda são 12:20h!”  Quem respondeu foi o mecânico, que vinha ao meu encontro, sorrindo meio sem-graça com a atitude do colega: “É que já acabou o movimento, e ele está doido prá ir embora!”  Ao que eu retruquei: “E que culpa eu tenho nisso?”.   

Mas para não agravar o desconforto, saquei logo o cartão para efetuar o pagamento por débito eletrônico, e o mecânico dirigiu-se ao atendente – que continuou encostado ao portal de entrada – pedindo para que ele passasse o cartão na máquina, ao que o outro retrucou (olhando para mim): “Já está careca de saber que o sistema de cartão não está funcionando!” – dito de uma forma que parecia ser mais para mim do que para o colega, pelo fato de eu ser um cliente antigo da loja.  Não entrei no mérito de não ter obrigação de saber se o sistema funcionava ou não naquele dia, e apenas respondi, bem devagar e baixando bem o tom: “Fica calmo, eu pago em dinheiro, tá bem?” 

Efetuei o pagamento, peguei a moto e saí, sem destratar o atendente mas também sem dedicar-lhe a atenção e cordialidade que lhe dera até aquele dia.  A questão é que o tratamento especial que sempre recebi por parte dos proprietários do estabelecimento me colocava na obrigação de tratar a todos da loja com muita cordialidade, o que me proporcionou receber um tratamento distinto e demonstrações de ser muito bem-vindo a cada vez que os procurava.  Isso, no entanto, não significa que passei do status de cliente para “amigo particular” dos donos e funcionários da casa.  O bom tratamento, a informalidade e a empatia estabelecidos ao longo do período de relacionamento não confere a nenhuma das partes a liberdade de alterar a forma mútua de se tratarem – como se estivessem lidando com pessoas íntimas com as quais se permite atitudes jocosas ou até debochadas.   Com certeza o atendente da loja confundiu as duas coisas e achou que, se eu me mostrava tão afável e simples na minha forma de me relacionar com eles, ele poderia me tratar como se eu fosse um amigo íntimo com o qual ele não precisaria escolher palavras para se dirigir a mim, o que é uma falha inaceitável em se tratando de relacionamento comercial entre prestadores de serviços e clientes. 

Tenho certeza de que, se eu relatasse o fato aos donos – que sempre me trataram com irretocável respeito e consideração – esse atendente por certo estaria demitido.  Mas resolvi não fazê-lo.  Nas próximas vezes em que estiver na loja tenho certeza de que o tratamento cortês, mas bem mais reservado, que eu vou lhe dar vai passar uma mensagem muito mais educadora do que a demissão.   

Excesso de intimidade nunca é uma boa postura a ser adotada para com o cliente, independente da forma como ele se coloca.  O cliente até tem o direito de se exceder ou não saber se posicionar de forma adequada, pois não precisa ser treinado para ser cliente.  O prestador de serviço nunca, pois seu salário depende dos que pagam pelos seus serviços.  Se não tiver essa consciência do seu papel, pode descobrir isso de forma bem mais contundente:  ou com a demissão – se for empregado – ou com o fechamento do negócio – se for o dono! 

É como diz o velho provérbio popular:  “Lé com lé, cré com cré”:  seus amigos são seus amigos, clientes são sempre Clientes!