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Objetivo e Público-alvo compatíveis:  um dever de quem educa

Consultor de Plantão nº 54

 

 

Mais do que um simples artigo esclarecedor, o texto mostra uma realidade comum a treinamentos aplicados a públicos incompatíveis com os objetivos atribuídos à capacitação, que acaba se transformando em uma experiência traumática para os educadores, e no mínimo frustrante para os alunos, por conta de deficiência de planejamento e análise dos componentes envolvidos antes de se formular as propostas educacionais, que privilegiam mais quantidade do que o resultado a ser alcançado.  O texto apresenta os conteúdos reais de duas avaliações de atividades educacionais aplicadas em município do interior do RJ.  Os locais e os nomes dos envolvidos foram trocados para preservar-se a identidade das pessoas e das instituições, pois que o objetivo é identificar o que NÃO deve ser feito em se tratando da relação Objetivo de Treinamento x Público-Alvo.

*Luiz Roberto Bodstein        

 

À Coordenação de Treinamento:

Como os senhores sabem, estou conduzindo duas turmas em Santo Antonio, e vou detalhar as diferentes realidades encontradas em cada uma para sua análise: 

 

Escola Municipal J.A.P - Turno da noite - horário de 18:00h às 22:00h. 

O público encontrado, em sua maioria é de indivíduos adultos, tendo apenas dois alunos ainda adolescentes.  Trata-se de pessoas que no sistema de ensino local fazem parte de um grupo de alunos que chamam de "Turma de Aceleração", ou seja, pessoas que tiveram dificuldade para cursar o período regular e, por estarem já atrasados e acima da idade para os períodos junto com os demais, foram inseridos numa classe especial que lhes faculta cursarem 4 séries (de 5a. a 8a.) em apenas um ano. 

Estou com o professor da turma - Sr. Eduardo - também acompanhando o meu curso, que me solicitou permissão para frequentá-lo junto com os alunos.  O professor Eduardo, que leciona português, geografia, história e matemática para a turma, me confirmou o que eu percebi logo que entramos na parte de "Os números da Empresa":  seus alunos ainda não tiveram qualquer contato com operações com números decimais ou percentual.  Conhecem apenas as 4 operações básicas.    

Isso exigiu que eu fizesse adequações na forma de passar o conteúdo, mas foram adequações que demandaram apenas algumas horas minhas, e não me obrigaram a inserir modificações signicativas na metodologia do curso (por exemplo:  nas partes que envolvem decimais e percentuais, como o cálculo de Índice de Margem de Contribuição para se chegar ao Ponto de Equilíbrio em valores, eu os orientei para multiplicarem o Ponto de Equilíbrio em Quantidade pelo preço de venda do produto, que o resultado matemático é exatamente o mesmo, e pude assim suprimir decimais e percentagens sem qualquer prejuízo do conteúdo, e menos ainda do entendimento por eles). 

De mim foi exigido apenas um trabalho maior para inserir na metodologia um papel mais efetivo de "acompanhamento" durante as aulas, e trabalhar o tempo disponível:  eu os acompanho, passo a passo, na execução do "Banco de Dados" em aula, e não como lição de casa, como dita a metodologia.  A realidade deles é difícil - para trabalhar durante o dia e estudar a noite em condições precárias - e eles não o fariam em casa.  Sacrifiquei apenas o "enfeite" do conteúdo em favor de um resultado efetivo para eles, pois o "Banco de Dados" é realmente a prática do conteúdo que precisam, e estamos construindo juntos todo e entendimento.  Eu simplesmente forneço os dados e eles encontram as respostas, e estão animados e felizes com a compreensão a que estão chegando.  Até o professor Eduardo declarou que o conteúdo se mostra muito interessante e, mesmo lecionando aritmética, tem-se deparado com uma linguagem nova e muita coisa que não sabia sobre contas de empresas, durante as aulas.   

O grupo todo está motivado, apesar da classe cheia (chegou-se a 38 na lista de presença).  Sem exceção, percebo que estão curtindo muito as descobertas que estão fazendo, e entusiasmados a cada etapa vencida, quando descobrem os resultados por si mesmos e que possuiam um potencial para tais contas que eles mesmo desconheciam.   

Da minha parte o grande desafio foi vencido com a satisfação de vê-los crescer dia a dia, e o grupo está perfeitamente integrado e em dia com a matéria ministrada, sem qualquer atraso em relação ao programa previsto, apesar do tempo restrito e das limitações próprias de sua realidade.  Em Santo Antônio a condução é precária:  os ônibus de linha regular da cidade circulam em longos intervalos (média de 40 minutos), e são caros para os padrões deles, oriundos de comunidades carentes (R$ 1,50).  Dependem do transporte escolar, que tem hora certa para sair.   Por conta disso, fui obrigado a transformar as minhas 04 horas diárias em apenas duas horas e 50 minutos para ministrar o mesmo conteúdo.  Motivo:  a esmagadora maioria trabalha e não consegue chegar antes das 18:30 (então o próprio Prof. Eduardo e a Vice-Diretora, Sra.Marta, me pediram para fixar o horário de início para as 18:30h); entre 20:10 e 20:30h tenho que interromper as aulas para que possam jantar (para muitos, a única refeição do dia); e no final, preciso invariavelmente concluir a aula até às 21:40h, quando eles descem correndo para pegar o ônibus escolar, que sai pontualmente às 21:45h.   Mais de 90% dos alunos vão para bairros distantes e sem transporte, e dependem exclusivamente desse ônibus para chegarem em casa.   

Imagino o que seja a realidade deles se, mesmo para sair da pousada onde estou hospedado (a cerca de 20 km do colégio mais próximo), enfrento um ônibus lotado que passa em horas certas.  Se eu perder o da hora, não dá para chegar a tempo no próximo.  Se eu me confundir na hora de saltar e passar o ponto, não vou ter como voltar para o local certo a não ser 40 minutos depois.  Ao saltar, tenho que caminhar por estradas estreitas, mal iluminadas e enlamaçadas nos dias de chuva, por cerca de 2 ou mais quilõmetros a pé, além do intenso frio que faz à noite por lá (cerca de 12 graus de manhã e à noite), para chegar à escola.  A Marilene, Supervisora da instituição patrocinadora, me disse que contrata um taxi que a leva e vai buscá-la por R$ 30,00, nos dias que vai às escolas.  Mas se eu for imitá-la para as duas escolas (R$ 60,00 por dia), vou gastar mais no transporte local do que vou receber pelo trabalho, posto que só com as idas e vindas atuais Rio-Friburgo-Santo Antonio-Escolas, etc. o valor relativo a um dos quatro cursos que conduzo já está todo comprometido só nas despesas. 

 

Escola Municipal S.I.J - Turno da manhã - horário de 07:30h às 11:30h. 

Apesar de, nesta escola, eu ter as 4 horas previstas, o grau de dificuldade encontrado na J.A.P, da noite, nem de perto se aproxima do mínimo necessário para tocar o curso nesta outra realidade.  Se, na J.A.P, as dificuldades todas se encontram pelas limitações contextuais - que puderam ser superadas sem prejuízo do trabalho - nesta escola em S.I. toda ela se concentra no público alvo escolhido, que é constituido em 100% por adolescentes carentes de cidade do interior, sem os pré-requisitos mínimos para sequer entender o que se lhes está tentando transmitir.   Este grupo é todo constituido por meninos e meninas - também de sala de "Aceleração" - que não tiveram qualquer acesso ao mínimo que se poderia cobrar de preparo ou conhecimento prático para alcançar o conteúdo do Aprender a Empreender.  Nas primeiras aulas eu descobri que dentre eles havia apenas 3 ou 4 que poderiam acompanhar o conteúdo da forma como ele se apresentava:  Weslei, Jenifer, Sandro e, talvez, Lucio.  Todos os demais não tinham condições sequer para entender o que - com muita dificuldade - tentavam ler, quando solicitados:  tropeçavam nas palavras do texto, desconsiderando pontuação ou final de frase, e quando perguntados, não sabiam dizer o que leram.  São, na esmagadora maioria, analfabetos funcionais. Para escrever, pior ainda:  o que tentam escrever é incompreensível à luz da ortografia ou sentido lógico.   

Percebi de imediato que tentar falar de realidade de empresa, para eles, no mais simples sentido da palavra, já era difícil.  Fazer uso dos termos da apostila, então, como "Mercado Consumidor", "Estratégia de Marketing" ou "Resultados da Empresa", então, era algo completamente distanciado de sua realidade, pois o mais próximo de "mercado" que eles conhecem é a birosquinha onde fazem suas compras.   Mas a parte que envolvia apenas textos foi possível contornar, pois eu tratava de "decodificar" todo o conteúdo ao máximo, trazendo tudo para o "be-a-bá" de suas vivências diárias, usando a birosquinha que conheciam como exemplo de empresa e negócio, substituindo os termos técnicos da apostila por expressões mais simples, etc. 

Mas eu percebia pelos olhares deles que tudo estava muito acima do que podiam alcançar, mesmo com as adequações.  E isso não se devia só à formação educacional deficiente de suas realidades, mas a todo o contexto social carente à sua volta que não os enquadrava nos padrões de jovens que conhecemos nas grandes capitais.  O nível de maturidade deles - fator preponderante da questão - é baixíssimo.  Conversando com eles durante as refeições, vários me revelaram gostar de vir à escola para não ter que trabalhar em casa, onde enfrentam condições das mais adversas.  Também preferem estar alí porque recebem alimentação que não podem pagar (a merenda escolar, apesar de simples e sem preocupação de sabor, é substancial e nutritiva: pode misturar num prato único, macarrão com salsicha e repolho, por exemplo.).    

São tão imaturos que eu tenho que administrar muito mais a disciplina do que o conteúdo, pois todo o tempo tem sempre um fazendo perguntas do tipo: "Fessô, posso tomar água? Fessô, posso ir ao banheiro?", só prá se ter uma idéia do nível de despreparo deles para o tipo de conteúdo do curso.   Nenhum deles ali trabalha, são todos crianças tidas como "atrasadas" em relação ao ensino regular (daí a sala de "aceleração").  Apesar da idade de alguns chegar a 18 anos - o mínimo para a aceleração é 15 - raciocinam e agem como crianças bem mais novas, e só veem a escola como uma alternativa para se alimentarem e fugirem às condições difíceis em que vivem. 

São muito carentes na questão afetiva, além de materialmente.  Tive que "dar bronca" por conta de algumas rebeldias e excesso de indisciplina, no mais puro modelo do professor de escola primária do interior, pois alguns se recusam, simplesmente, a integrar um grupo de tarefa porque não gosta da colega que está nele, ou chora dentro de sala porque o colega "zoou" com ela.  Aí tenho que chamar a atenção do agressor e consolar a menina que estava chorando, debruçada sobre a carteira.  Acreditem!  Essa é a realidade desse público de um curso de empreendedorismo!    

Apesar de tudo, quando achei que todos deveriam estar detestando o curso porque fala de coisas "de outro planeta" onde eles nem de longe passaram, para meu espanto vários me revelaram que estão gostando muito.  Perguntei porque, e me disseram que eu sou "muito mais legal" que a professora deles, que muitas vezes "chega irritada", "briga com todo mundo" (sic), etc.   Descobri que o curso está sendo aceito muito mais porque eu sou mais "tolerante" do que o que estão acostumados – e brinco com eles, faço carinho depois da bronca, etc. – do que pelo que estou tentando lhes transmitir em conteúdo.   

Por mais adequações que eu tenha feito no conteúdo – e fiz inúmeras, inclusive dedicando todo o meu tempo livre a isso – não consegui tornar o programa mais acessível, simplesmente porque eles não têm o mínimo de alcance para a proposta do treinamento.  Em termos de contas e números, em determinado momento eles tinham que multiplicar 275 por 10 para descobrir o "Ponto de Equilíbrio em Valor Monetário", e apenas dois acertaram o resultado, assim mesmo utilizando a calculadora dos celulares para fazer a conta.  

Percebi que não havia mais nada, em termos de adequação, que eu poderia fazer.  Estava mais do que claro que o conteúdo está totalmente equivocado para aquele tipo de público.   Transformei todo o conteúdo numérico que deveria ministrar, em um "Grande Torneio do Estudante Empreendedor" de Santo Antonio, onde passo o capítulo da telessala do dia, e exploro ao máximo as perguntas passadas aos grupos, que discutem entre eles e depois me dão as respostas.  Cada resposta certa dá um ponto para o grupo.  Eles então se cobram uns aos outros para prestar atenção no capítulo do dia, se empenham em fixar os conceitos mostrados no vídeo para ganhar mais pontos na competição que estabeleci, e assim acabam aprendendo alguma coisa que talvez possam aproveitar em suas vidas, ainda que como uma remota possibilidade.  

Também todos os dias começo as aulas com um texto que faz alusão ao comportamento empreendedor do dia, que reuni ao longo de outros cursos de empreendedorismo, e peço que eles reflitam sobre o que foi lido.  Dali saem também algumas considerações interessantes por parte dos mais espertos, mas não exijo muito de suas interpretações, que ficam muito na superfície da estória lida. 

Então é assim, senhores, que estou tocando a turma da manhã da Escola S.I.J.  Creio que o curso de Relações Humanas estará bem mais identificado - ou próximo - do que eles podem oferecer como resposta, pois traz muitas atividades e dinâmicas que estão bem mais adequadas ao perfil deste grupo.  Apliquei o pré-teste e o pós-teste que a metodologia pede, no início e no fim do curso mas, apesar das recomendações, a grande maioria "chutou" apenas para não "ficar mal" e ser debochado pelos colegas, pois essa é a mentalidade reinante.  Não acredito que a comparação entre os dois testes, após o encerramento, possa ser indicador de coisa alguma, como também não creio que eles possuam condições de responder à avaliação do treinamento, oferecendo informações que se prestem a aprimorar o conteúdo.  Eles vão "chutar" tanto nos testes quanto na avaliação de reação, e qualquer resultado pode ser esperado, menos servir como subsídio para avaliar coisa alguma, coisa que não acredito acontecer com a turma da noite, da Escola J.A.P, que é bem mais madura e consciente. 

Atenciosamente,

Luiz Roberto Bodstein

Instrutor em Empreendedorismo

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* Luiz Roberto Bodstein é Consultor de Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento Estratégico e Gestão de Pessoas.  Consultor, Instrutor e Conferencista pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear, entre outras.