
Contribuição
de Educador
Consultor
de Plantão nº 55
Ao longo
da carreira nos vemos, muitas vezes, na contingência de
ter que escolher entre a coerência com
nossos valores e o silêncio que preserva o trabalho conseguido com tanto
esforço. O que nos acontece de melhor
na vida é quando a maturidade nos liberta do medo de perder, quando nos
abastece o espírito com a serenidade que só
aceita dividir espaço com a consciência do dever cumprido.
*Luiz
Roberto Bodstein
Caríssimo parceiro:
Em primeiro lugar quero agradecer a escolha
do meu nome para ministrar o treinamento em questão, mas me vejo na
contingência de declinar do convite, e minha estima por você me obriga a ser
coerente com o respeito que sempre norteou nosso relacionamento e
tecer algumas considerações sobre os meus motivos:
comecei a ministrar cursos de logística desde que fui habilitado em outubro
de 2004, e o conteúdo que até hoje utilizamos nos treinamentos data de 2003.
Isso não seria problema se ele se apresentasse
compatível com a proposta buscada pelo cliente, mas basta uma análise
das avaliações dos alunos para se constatar que, invariavelmente, o material
didático é responsável pelas menores pontuações em relação ao
treinamento. Isso não tem acontecido com uma ou outra turma, mas com
TODAS as com quem tenho trabalhado, e os registros dos escritórios podem
comprovar esta afirmativa. Daí porque sugiro não tomar minha opinião
como definitiva antes de constatá-la por si mesmo, checando as avaliações
de reação e ouvindo os demais instrutores da disciplina, vários dos
quais me relataram as dificuldades enfrentadas para defender um
conteúdo comprovadamente indefensável. Os alunos sempre enaltecem os
meus esforços para contornar as absurdas deficiências do material didático
do curso.
Embora possa parecer lisonjeira, essa percepção
por parte deles em nada me conforta frente ao conjunto de dificuldades
enfrentadas para reduzir os impactos negativos que se abatem sobre todos -
tanto sobre eles quanto sobre o instrutor. Erros no texto ou resultados
numéricos em desacordo com o exercício da apostila são relativamente
comuns, e facilmente contornáveis por um profissional que possua um mínimo
de experiência na atividade. Mas, neste caso específico, os erros são
estruturais ao longo de toda a apostila entregue aos alunos, o que coloca o
instrutor entre a situação de "saia justa" ou de uma desgastante
tarefa de preparação para reduzir o maxímo possível os inevitáveis
questionamentos que terá de enfrentar em sala.
Citar os principais defeitos do material só se
aplicaria se fossem pontuais ou em módulos específicos.
Mas no caso em pauta estes se estendem por todo o conteúdo, exigindo uma
intervenção abrangente e imediata em todo o contexto didático e de formatação.
Seria muito menos produtivo tentar corrígi-lo do que elaborar um conteúdo
totalmente novo.
Apesar de minha experiência de quase 3 décadas
com todo tipo de público confesso que este caso, em especial, me coloca
em situação de constrangimento por ter-se tornado crônico, ao se estender
por tanto tempo sem que nada se tenha feito a respeito. Sinto-me desconfortável
quando questionado sobre o porquê de não se ter corrigido distorções tão
gritantes em uma edição - datada de 2003 - tão recheada de erros
quanto a que eles recebem em mãos. Alguns alunos já fizeram a
observação que o resultado da apostila parece mostrar que ela é produto da
reunião de um especialista de alto conhecimento do assunto com técnicos
internos generalistas: um forneceu o conteúdo num nível técnico bem
acima do que os que a redigiram podiam compreender, de forma a manter a sequência
lógica e a didática de transmissão, e sem se encontrarem de novo para
conferir o resultado. Por mais que nos esforcemos, não há como ouvir
tal coisa e permanecer indiferente à realidade que retrata. Contestá-la
seria um desrespeito à capacidade analítica dos treinandos e à nossa
própria autocrítica enquanto profissionais conscientes do papel de oferecer
o melhor para nossos clientes.
Por tudo isso decidi não voltar a ministrar
essa disciplina enquanto o material permanecer o mesmo, tanto pelas situações
descritas quanto pelo desgaste a que sou submetido a cada curso ministrado na
tentativa de contornar as deficiências amplamente constatadas.
Não se trata absolutamente de me colocar em posição
superior aos demais instrutores, que também se desdobram para fazer sua parte
e continuam a fazê-lo. Mas, principalmente por respeito a eles e aos que virão
depois, é que opto por ser sincero e coerente com meus valores. Tendo
trilhado um longo percurso profissional, olho para trás e vislumbro uma
trajetória cumprida com dignidade e muitos momentos de respeito e
reconhecimento pelas instituições para as quais prestei serviços. Oficialmente
aposentado e harmonizado com a simplicidade do meu padrão de
vida, não dependo agora de qualquer trabalho obrigatório para garantir
minha sobrevivência. Então é hora de olhar pelos que ainda aí estão,
e contribuir para que possam oferecer um patamar qualitativo cada vez mais
elevado às pessoas que buscam nesses meus colegas as soluções que precisam
para vislumbrar horizontes maiores. Considero
que é o mínimo que posso fazer para a evolução permanente de todo o
sistema ensino-aprendizagem do meu país, que sempre foi o foco de minhas crenças
e motivo maior de minha trajetória de vida.
Por levar a sério a orientação constante
no próprio material didático da Instituição de reportar os erros
encontrados aos órgãos pertinentes "para sua constante evolução",
já fui alvo de reprimendas ao acreditar nesta recomendação, e a questão da
sobrevivência obrigou-me a sufocar no peito tanto a ânsia pelas
melhorias quanto o incômodo sentimento de frustração e desrespeito ao
cliente. A maturidade na carreira, porém, nos premia finalmente com a
liberdade da consciência e o pleno exercício do papel de contribuinte
na nossa missão de educadores.
Livre para me colocar em total harmonia com meus
princípios e esquema de valores, não poderia me omitir nos ajustes que se
fazem necessários para que possamos, em futuro breve, desfrutar de um momento
mais crítico e honesto em relação àquilo que oferecemos às pessoas,
substituindo de vez quantidade por qualidade, o fazer por fazer
por compromisso com resultados. Excesso de idealismo? Utopia
social? É possível! Mas ainda assim me sinto interiormente realizado
por poder vivenciar este sentimento de forma integral, norteado
apenas pelo meu próprio senso crítico, mesmo na contra-mão dos
que ainda precisam se submeter a critérios externos digeridos com
dificuldade.
Por respeito a você, a meus colegas de lutas e,
principalmente, àqueles que nos buscam com o propósito de abrir atalhos
para suas metas, eu não poderia me furtar a tais considerações para me
manter nos trilhos. Prefiro a flexibilidade das trilhas, que permitem
desvios desde que não se perca a visão do destino final.
Com carinho e respeito,
Luiz Roberto Bodstein
Consultor e Educador
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* Luiz
Roberto Bodstein é Consultor de
Organizações, especialista em Sistemas de Gestão pela Qualidade, Planejamento
Estratégico e Gestão de Pessoas. Consultor, Instrutor e Conferencista
pela Fundação Getúlio Vargas, SEBRAE e IBQN-Inst.Bras.Qualidade Nuclear,
entre outras.